Na próxima sonda espacial lançada aos confins do universo em busca de inteligência e contendo amostras da cultura terráquea certamente o Arandu Arakuaa teria lugar. A banda faz uma combinação única e bem dosada de vocais femininos guturais e melódicos, resgate de cantos e línguas ancestrais, metal pesado e som orgânico com instrumentos tradicionais. A periferia da capital de um país megabiodiverso ainda do terceiro mundo gerou uma banda com a mistura genética do povo brasileiro que está no patamar internacional já alcançado um dia por Chico Science & Nação Zumbi.
Após 500 anos um ameríndio assume a liderança política constitucional de um país (Evo Morales na Bolívia). Mesmo quem não se declara indígena na América do Sul, muito provavelmente geneticamente o é. O que falta para que a cultura tradicional, dos nossos ancestrais, tenha mais espaço na mídia contemporânea brasileira?
Nájila Cristina (vocais):
Acho que falta uma conscientização desde o ensino fundamental, um conhecimento maior da sabedoria dos povos para que as próximas gerações possam perceber a importância da cultura indígena, da nossa história, nossas raízes. Acho que há pessoas com uma raiz forte com a questão indígena, nascidas em tribos e algumas tem vergonha de dizer que são índios, por preconceito dos outros. Dizem que são selvagens, vivem no meio do mato, não é civilizado, estas coisas.
Zândhio Aquino (guitarra, viola, teclado, vocais):
A grande maioria dos brasileiros tem raiz indígena. É uma questão histórica. Se formos analisar a nossa formação, o que é vendido pela mídia e o que é ensinado nas escolas, vemos que a cultura ocidental começa na Grécia. O império romano acabou invadindo o resto da Europa e a Europa invadindo o resto do mundo. Então foi aquela cultura. Acontece que desde cedo a gente é ensinado a renegar nossas raízes, a ter vergonha delas. Até as figuras que víamos em cartilhas de alfabetização, elefantes e mesmo aquele índio não condiz com a realidade.
A mídia é um reflexo da sociedade e a sociedade reflete na mídia. Agora com o aquecimento global as pessoas vão ter que buscar o instinto de sobrevivência e buscar um modo de vida diferente. No fundo tudo é uma questão de sobrevivência. As pessoas vão ter que começar a olhar isto. Na verdade não é uma coisa complicada, a cultura indígena esta aí, a maioria tem sangue indígena, a cultura indígena está em quase tudo, na culinária, e isto é pouco divulgado.
Nação Zumbi, por exemplo, é uma banda de referência nestas questões culturais, em termos de inovação, mas se formos ver, a cultura afro é mais enraizada na sociedade, há mais acesso, principalmente no Nordeste, os negros preservam muito e na história a casa grande convivia lado a lado com a senzala. Com a cultura indígena realmente é mais complicado porque há esta barreira de achar que o índio tem que viver isolado, tem que andar pelado, se andar de celular então não é mais índio, então é algo muito mais complexo. Não é algo tão popular como a cultura afro. A própria mídia vê com mais facilidade a cultura afro.
Saulo Lucena (baixo, vocais):
Pelo fato de eu ter sido criado em uma cultura distante da indígena posso afirmar que eu mesmo sou uma vítima desta falta de informação que acaba ocorrendo. O sistema não gira tão a favor de nossa cultura nativa. Claro que há exceções, mas por exemplo eu aprendi na escola que o famoso 19 de abril, dia do índio, era apenas uma visita à sede da Funai aqui em Brasília. Era uma coisa muito superficial. Principalmente as cidades que ficam longe dos indígenas. O sistema não valoriza a cultura indígena. É passada a história mas muito mais aquela coisa da colonização.
Não tem esta de descobrimento do Brasil. Existiam civilizações nativas avançadas na América, já há vários milhares de anos. É um conceito muito maior. Isto acaba refletindo no brasileiro, mas só aquela coisa pós-colombiana. Quem não se envolve não sabe a riqueza que são os costumes, o próprio modo de vida. O nosso filtro de barro veio dos índios e há pesquisas científicas que dizem que é o melhor sistema de filtragem que existe. O conceito de usar a natureza a nosso favor, sabendo entender ela. O que há hoje é a questão extrativista, do vamos explorar, explorar, aquela ideia da produção. Produzir, produzir e passar por cima de tudo.
A internet permite viagens virtuais e acesso quase ilimitado ao conhecimento tradicional das populações ancestrais. Como usá-la a favor da divulgação da cultura indígena e onde a internet atrapalha?
Nájila:
O primeiro CD não foi liberado mas vimos que o pessoal acabou baixando. A internet ajuda e ao mesmo tempo atrapalha. Pela questão de não estar fornecendo um material de qualidade. O nosso trabalho pode ser divulgado de uma forma não trabalhada, de qualquer jeito, sem qualidade, o que acaba prejudicando a divulgação ao público. Com uma baixa definição digital.
Zhândio:
Para a Arandu tem mais ajudado que atrapalhado. Eu acho que a internet não tem tudo. É só um ponto de partida para depois você ir mais a fundo. Vai muito da formação cultural de cada um. Se a pessoa não tem boa formação ela vai ver a mesma porcaria na internet daquilo que vê na tv. Mas acho que ajuda a democratizar. Soubemos que já colocaram o nosso primeiro CD na internet. É bom porque divulga. Mas a pessoa paga 10 reais no CD e divulga para o resto do globo para todos terem acesso. Se for ver, do ponto de vista ético é errado. Não é aquilo que nossos avós, pais nos ensinaram. Afinal é o mesmo que pegar algo sem autorização.
Do ponto de vista de divulgação de mercado é bacana. Porém divulgamos muito em vídeos, investimos capital nisto, o video clipe, o single já é uma apresentação da banda. No primeiro disco fizemos dois clipes e um vídeo com as letras. Neste segundo CD pretendemos lançar uns três ou quatro vídeos. O que se espera é que quase tudo que tenha no CD tenha no clipe. A pessoa se interessa e vai buscar.
Infelizmente não temos ainda uma distribuição muito boa. Para ser honesto eu não tenho ainda uma opinião muito bem formada. Posso dizer que a internet ajuda. Do ponto de vista moral é errado, mas para a gente até agora vem ajudando a divulgar. Acontece que você pode investir para fazer uma produção bacana, de nível gringo, como se usa este termo no Brasil, nível profissional é nível gringo, aí o cara baixa o CD em MP3, ouve num celular ou com baixa definição e acha que o CD está mal produzido.
A gente não tem colocado o CD todo para download gratuito porque quando uma banda faz isto, acho que não contribui para o mercado, porque isto cria um vício, isto atrapalha as outras bandas. Cria aquela estória de dizerem que você vende um CD a 10 reais e outra banda disponibiliza gratuito. A gente não faria isto pelo compromisso com a cena. Cria-se uma cultura de que tudo tem que ser de graça, sem profissionalismo. Se você faz um show em local fechado e não cobra ingresso, você está desvalorizando o trabalho dos colegas.
Saulo:
Em termos de divulgação de imagem a internet ajuda bastante. A pessoa vai procurar e se for do interesse vai se aprofundar. Mas não é assim que se está na Wikipédia é a verdade e acabou por aí.
Quanto aos downloads, se a pessoa gosta de banda vai querer comprar o CD, uma camiseta. Estamos em um lance profissional, obviamente se espera algum retorno. Desde o início a ideia foi viver da banda. Queremos passar o resgate da cultura indígena e tradicional brasileira. Uma de nossas propostas é de certo modo ressurgir o orgulho de ser brasileiro. Mas hoje todos da banda têm trabalhos paralelos, ninguém sobrevive hoje só da banda ou só de arte em geral.
Zhândio:
Banda autoral quando começa a fazer uma qualidade melhor de som deixa um pouco de tocar ao vivo porque busca este aprimoramento. Quando uma banda grava um CD começa a trilhar por um caminho mais profissional, ao invés de aumentar a quantidade de shows. Nós mesmos tocávamos muito mais do que hoje.
Os Bandeirantes são vistos hoje como heróis. Quase não há cidade brasileira sem referência explícita a eles. Os Bandeirantes foram imortalizados tanto quanto suas tribos massacradas: Tamoios, Tupiniquins, Guaranís e tantas outras. O Borba Gato posa em monumentos garbosamente ostentando seu bacamarte. A Polícia Militar de São Paulo é representada no brasão com um Bandeirante. A cidade de São Bernardo – SP tem em seu brasão outro bandeirante, lado a lado com um indígena. Música e as artes em geral podem ser uma forma eficiente de explicitar a hipocrisia de boa parte da sociedade brasileira ou ninguém presta muita atenção às letras das músicas?
Nájila:
Há pessoas que buscam um enriquecimento em termos de conhecimento. Acho que para estas pessoas a proposta do Arandu Arakuaa será atingida. Eles vão procurar saber e entender nossa mensagem. Principalmente na questão de preservação do meio ambiente, preservação das culturas tradicionais, erradicação do preconceito. Se no mundo houvesse respeito a todas as etnias, todas as religiões, com certeza viveríamos em um mundo melhor.
Zhândio:
Há um mal nas religiões, como foi a história da catequização dos índios. Não cito nem a questão da religião, mas sim da verdade. O hindu vai defender a sua cultura até o fim, o muçulmano a mesma coisa então é muito complicado esta coisa de religião. Somos de cultura cristã e toda a máquina da história vai ser de cultura cristã. Também José de Anchieta vai ser tratado como herói porque catequizou, cristianizou os índios.
Sobre os bandeirantes serem heróis imagina uma coisa simples. Você está na sua casa, com sua família, seus amigos, aí vem alguém entra em sua casa, mata seus filhos, estupra sua mulher, leva a filha mais bonita embora para servir de escrava sexual. Este sujeito não pode ser tratado como herói. Algum grupo de assassinos chegou, invadiu a terra e depois com o tempo foram aperfeiçoando a forma de dominar, pela opressão, mas no início era pela força mesmo. Até pouco tempo rolava isto. Eu sou do norte de Tocantins, minha avó tinha sangue indígena. Fui criado próximo a aldeia indígena Xerente. Minha avó contava histórias que imagino que ela tenha visto quando criança, ou que tenha ouvido, que chegava o homem branco na aldeia, matava todo mundo e as mulheres grávidas depois de mortas tinham a barriga aberta e a criança era aparada na ponta do facão. Não consideravam o ser indígena como se fosse humano, era como se fosse um animal. Então não acho que bandeirante tenha sido herói. Trouxeram o dito progresso mas tomaram terras, trouxeram doenças que não eram comuns nas aldeias. Será que os índios queriam este progresso? O natural seria eles mesmos terem decidido o tipo de progresso natural que queriam. Então eu não vejo de forma positiva qualquer tipo de invasão. Seja no Brasil, na Índia, qualquer tipo de invasão.
Saulo:
Por outro lado os índios já tinham seu próprio sistema religioso e foram dizimados por defender isto, sua cultura, seu modo de vida.
Já existiam civilizações indígenas bem avançadas, não só no Brasil, mas por exemplo os Astecas, os Maias, havia avanço cultural. Realmente existiam guerras entre eles, mas eram valores totalmente diferentes. Bandeirantes eram os capachos do império a serviço dos invasores que se importavam só com o desenvolvimento do império, de sua economia. Claro que esta economia não iria chegar aos indígenas. Acabaram com doenças, expulsos e a grande maioria morta.
A música povo vermelho aborda esta questão da história e mais ao final fala da resistência da cultura.
Zhândio:
As letras da Arandu, o clima das músicas, é mais para que as pessoas tenham aproximação com a cultura indígena, os costumes, a natureza. É mais por este lado, até porque no Brasil as pessoas estão um pouco desacreditadas em um discurso mais agressivo. Na maioria das vezes as bandas que tem uma postura mais agressiva, na cara, acaba sendo, porém não deveria ser, algo como um desabafo. É uma coisa muito pontual. Há sim o lance do rock and roll, que é bacana, mas na Arandu buscamos mostrar um caminho mais musical, algo mais climático.
A estética das letras e da música da Arandu é muito baseada na música indígena. Na música indígena as palavras são poucas, mas são fortes e são conectadas com a música, tem muito improviso. Então o clima da música vai falar muito, não só a letra. A língua portuguesa é muito complexa, fazemos frases enormes, a língua indígena é mais primitiva, mas é um contexto forte. A gente pensa muito nisto na hora de compor.
Falem sobre o processo de pesquisa dos instrumentos tradicionais e da escrita tupi guarani.
Adriano Ferreira (bateria, percussão):
A pesquisa de percussão vejo muito pela internet, em literatura. Lá em Recife há o maracatu, há no Pará o Carimbó. Eu tento buscar, pegar estes elementos de cada região de nosso país, algo que eu possa implementar no som da Arandu.
Nájila:
No final de agosto de 2015 sai o segundo CD. Está mais evoluído. Neste segundo álbum usamos duas novas línguas, o Xerente e o Xavante e também o português. No primeiro CD as letras foram em Tupi Guarani arcaico. Não houve a tentação de fazer letras em inglês, mas já pensamos em um cover cantado em inglês.
No primeiro CD houve teclado em algumas músicas. Neste segundo CD menos. Utilizamos bem mais instrumentos indígenas. Muito canto e som indígena, tribal. Tem a letra em português que é bem crítica, chama "Povo Vermelho". Acho que vai dar o que falar pois fala da colonização, da exploração, do processo de extermínio que os índios ainda estão sofrendo e dos colonizadores que são tratados como heróis. Fazemos primeiro a música e depois encaixamos a letra. Parte da letra fala de uma senhora indígena que teve a tribo atacada quando criança, há mais de 50 anos.
Zhândio:
Com relação a pesquisa de instrumentos fazemos por conta própria. Para mim foi particularmente fácil pois de onde vim, ter tido acesso, então este tipo de informação sempre foi fácil. Contatos com amigos indígenas ou então alguém que conhece algo. É algo informal, de amizade mesmo. Com relação às pesquisas de línguas indígenas é algo bem complicado, pois a língua tem a cultura falada, é passada de geração a geração verbalmente então obviamente ela vai sofrendo alteração. Se a língua escrita sofre alterações, imagine a oral. Então tem pouco material de pesquisa e o pouco que há foi feito com o único objetivo de catequizar. Os poucos que não tem este objetivo acabam ficando presos em universidades, algum projeto pontual de pós-graduação que não é divulgado para a sociedade como deveria. Então fica bem restrito.
Para o primeiro disco o material de pesquisa que a gente usou, em termos de gramática foi o método moderno de Tupi antigo de Eduardo de Almeida Navarro. Acontece muito de darmos entrevistas para estudantes, letras das músicas já foram usadas em aulas em universidade e para escolas. Então sempre tivemos uma conexão forte, apesar de não sermos do meio acadêmico, nenhum integrante, mas há esta conexão forte com a pesquisa.
Nas gravações dos teclados não colocamos samplers. É aquela coisa da tecla mesmo, tocando. Este segundo CD está muito mais orgânico. Gravamos chocalhos, algumas partes é o som de pés, não é o bumbo da bateria. Tem uma música que tem teclado, mas é tocado como piano mesmo.
Arandu tem todo tipo de fã que gosta da banda. De black metal à evangélicos. Já vi até skinhead que curte o som da Arandu, pelo lance do nacionalismo. Por isto a gente da banda não se envolve, tenta respeitar a ideologia de cada fã. Black metal respeita a gente para caramba, muita gente dá apoio, também estudantes da MPB. Vou colocar meu exemplo que acho que a maioria da banda compartilha. Eu nasci na zona rural, sou descendente de indígena, tenho pele clara, saí para estudar, sou pedagogo, sou roqueiro, mas continuo com esta afinidade com a cultura indígena, com música de raiz, toco minha viola, ouço muita música de raiz e sou metaleiro pra caralho. Então o cara que me vir na rua, de pele clara, cabeludo, vai achar lá vai o playboyzinho, o cara da cidade, o urbano, só que este filho da puta não sabe a estória de cada um. Não há como saber a estória que tem uma pessoa.
Acho que a Arandu tem muito a contribuir com pesquisadores, vai muito da linha de pesquisa, em vários campos poderíamos contribuir, no musical, no comportamento. Claro que com conhecimento empírico, obviamente, mas estamos abertos a qualquer tipo de pesquisa que queira valorizar a cultura indígena, a cultura raiz de forma geral. Seja de pós-graduação ou ensino médio. Já demos contribuição a garotos que estavam fazendo trabalhos na escola.
O braço superior de minha guitarra é uma viola, para reproduzir o que é gravado em estúdio. Viola no captador, elétrica. No segundo CD há teclado em apenas uma música. Dependendo do show eu levo para o palco o teclado.
Tivemos outros guitarristas que participaram de shows. Eles eram integrantes da banda mas nunca chegaram a gravar. Desde o EP e nos dois CDs eu gravo as guitarras e os instrumentos tradicionais.
Acho que a informação mais relevante no novo CD é quanto a diversidade. No primeiro CD usamos só o Tupi arcaico. Neste segundo CD tem Xerente, Xavante e português. Então a ideia da banda é ter estas línguas indígenas, qualquer língua indígena.
A parte gráfica do novo CD foi feita pela Bianca Duarte e Natalie Duarte. No primeiro álbum a arte foi feita toda a mão, retratando mais o tupi, uma coisa mais histórica, retratando quase nada da atualidade. Foi um trabalho meio introdutório para a banda.
Saulo:
Trabalhamos muito o regionalismo. Viola caipira com 10 cordas. A bateria é mais percussiva, mais nas linhas regionais. Eu uso uma linha de baixo de seis cordas. Minha família é nordestina, então muita coisa da cultura nordestina eu transfiro para minhas linhas de baixo. Toco dedilhado e também o baixo acústico, que foi usado nos dois CDs, nas músicas mais acústicas, nas outras uso o baixo elétrico normal. Com isto o som é mais trabalhado, com marcações duplas e tal. Na Arandu pude desenvolver bastante isto. Cada membro da Arandu tem esta veia. Eu e Adriano somos filhos de nordestinos, tem este lance regional bem à tona. Zhândio e Nájila descendentes de indígenas. Em fevereiro de 2016 vamos fechar cinco anos com esta mesma formação.
A história de vários países é repleta de referências a genocídios de populações tradicionais. Vocês tiveram acesso ao Relatório Figueiredo (que demonstra as atrocidades cometidas contra os indígenas na ditadura militar brasileira). “Programa de índio” ainda é pejorativo. Afinal, quem fala mal de índio é por desconhecimento da cultura ou por idolatria à cultura contemporânea estrangeira?
Nájila:
Uma parte é desconhecimento, a outra parte o fato da mídia ser muito cinematográfica, muitas fantasias, se investe numa forma de levar as pessoas para um outro mundo, para sair um pouco desta nossa realidade em que vivemos, que é muito crua. Um sistema que torna as pessoas escravas, então acho que por esta coisa de levar para uma outra realidade que não existe, como uma fuga, ou até mesmo a questão de se sobrepor, de estar acima de algo, de auto-afirmar. No racismo, com a escravidão eu vejo desta forma, um dos motivos desta exploração é a questão de se sobrepor, de estar acima do outro. Para se assumir como superior. Não querem se igualar, querer estar sempre superior.
Saulo:
Na Arandu não buscamos esta coisa da política. A gente procura se envolver o menos possível com a política. Nosso modo de tocar as pessoas é muito mais pela questão cultural, pela música, pelas cantigas, pelo interesse da cultura, do modo de vida indígena, pelas estórias que são contadas. Buscamos a valorização de nossa cultura, o que não deveria ser nem uma questão política, porque é nossa identidade, nosso DNA. Isto era para estar latente, não deveria ser necessário focar a política. Pelo sentido puro a política é algo como o indivíduo que não concorda com o que acontece em seu meio então procura alternativas. Mas na Arandu não temos a postura de debates, brigas ideológicas, buscamos a conscientização.
Nájila: seguir a estrada no ambiente machista do rock pode ser um desafio para algumas mulheres. Com chocalho e adereços de índia o preconceito dobra?
Nájila:
Eu acredito muito no trabalho na banda. Se alguém levar para o lado da brincadeira eu tenho consciência da seriedade da banda, então não iria me afetar. Não me recordo de ter acontecido nada com relação a machismo. Estivemos há pouco em um festival de folk metal em São Paulo e vimos muita gente cantando. Muita gente foi para ver nossa banda mesmo, para cantar junto. Arandu Arakuaa tem um público bem abrangente, de black metal, death metal até evangélicos. Porque a banda não é algo para um público específico. Mas, na boa, iria em qualquer show, pode ser com bandas de metal extremo, mesmo porquê temos fãs black metal.
Adriano: mexer com percussão ancestral depois do Igor Cavalera deve aumentar a responsabilidade. O cara mostrou ao mundo a energia dos tambores tribais com o Sepultura e em “No Coração dos Deuses”, e ainda ajudou a divulgar o Taiko dos japoneses do Kodo. Em uma sonoridade tradicional, como a do Arandu Arakuaa aonde cabe o minimalismo percussivo e aonde cabe a técnica apurada?
Adriano:
Acho que tem uma coisa diferenciada no som da banda. É preciso algo diferenciado até para que as frases de bateria possam casar, por exemplo, com as levadas de viola. Desde o começo procuro trazer algo novo, uma pandeirola, jam block, agogô, várias coisas, o pau de chuva que toco também. Tem um instrumento bem legal que comprei de um cara da Paraíba chamado efeito jatobá, é um som bem diferente. No primeiro e no segundo álbum utilizei ele. Dá para ver no youtube o efeito jatobá e o pau de chuva além do set percussivo.
O set percussivo vem muito para casar com os outros elementos da banda, a viola, guitarra, baixo, que é para fazer um som diferente, porque o som da Arandu pede um set diferenciado. Tem uma coisa mais orgânica, por exemplo na batida dos pés. Eu e Zhândio fomos lá no estúdio para gravar isto, a coisa da batida no chão, como o som do bumbo da bateria. A gente não consegue fazer isto em show porque provavelmente não vai sair o som, mesmo com microfone não vai ficar muito legal.
Um instrumento percussivo, não chega a ser indígena nem nada, que uso, é o octoban. Aqui no Brasil quem usa é o João Barone dos Paralamas, gosto muito do som dele, um ótimo baterista. Eu uso no meu set. Além de ficar visualmente legal, traz uma sonoridade diferente, por exemplo, utilizei ele na gravação do segundo CD. É usado muito em bandas de reggae, de funk rock, é um som diferente. O octoban é usado também pelo Portnoy e pelo batera do Red Hot. Então tento trazer isto também.
No CD, na música que abre tem várias frases da música que é só o pé batendo mesmo, algo natural. Vemos que há em tribos esta coisa sincronizada, este gingado, do bater de pés. Tentamos trazer isto para dentro do CD, para as músicas.
Sobre o minimalismo ou a coisa mais elaborada, acho que a gente consegue manter os dois, uma coisa mais minimalista, mais simples, até porque a pegada indígena, a pegada regional, são coisas simples, não tão elaboradas. Já o metal, dependendo da frase da música, tem aquela coisa mais complexa, mais elaborada. Então acho que a gente transita entre estes dois lados. Até porque o som da Arandu, como a gente mescla tudo isto, fica uma coisa até difícil de tocar. Tem algumas coisas difíceis, porque é muita coisa tocando diferente ao mesmo tempo, é muito quebrado, um som de quatro tempos e em tempo que o beat é de um jeito, e outros quatros tempos em um tempo bem mais devagar. Então acho que a gente consegue mesclar esta coisa da dificuldade da música, de um instrumento que tem o seu grau de dificuldade e com simplicidade também. Música regional e música indígena são simples, geralmente coisas do cotidiano, frases e batidas mais simples.
Uso pedal duplo com um bumbo só, por praticidade. Dois bumbos fica uma batera bonita, estilosa, bem grande, só que para sair para fazer shows, ou mesmo em Brasília mesmo, por praticidade uso só um bumbo mesmo, com pedal duplo. Na batera uso um surdo de 16 na posição do tom e o tom de 14 ao lado do surdo. O surdo na posição dele é um de 22 polegadas. Procuro deixar o som da bateria grave. O Igor Cavalera usava muito algo assim, hoje em dia toca em um set mais comum. Com a mão mesmo toco só os maracás, tipo o chocalho e o pau de chuva. A meia lua/pandeirola pode ser tocada com a mão também, mas eu uso com as baquetas justamente para sair um som mais alto. Em show geralmente eu não levo o pau de chuva pois fica meio inviável, não fica muito alto o som. Há problemas para microfonar tudo isto em show, pois uso um set meio grande, tem até um tamborim que uso. Como é muita coisa, em shows menores o pessoal quer microfonar o básico da batera, que é chimbal, caixa, bumbo. Às vezes tenho que conversar com o técnico de som para tirar um microfone do chimbal e posicionar em outro local, pois vai interferir muito na música. E o set de bateria é o nosso diferencial. O set é grande e acontece de tocarmos em locais pequenos. Tocávamos direto em um pub de Taguatinga no início da carreira. Como é pub, é tudo pequeno, quase não cabia o set de bateria todo no palco. Tinha que adaptar, levar menos elementos de bateria justamente para caber.
Agora, show grande não, dá para levar tudo, microfonar tudo. Sobre o lance do Igor Cavalera, eu acho que é um estilo diferente. Lógico que este lance do surdo como tom o pessoal vai ligar ao Cavalera, mas acho que tenho um som próprio. O Igor não usava muito os elementos indígenas, era a coisa mais afro. Ví no Roots na época de 95/96 o set dele não tinha muita coisa. Eu procuro ao máximo levar uma parada que seja só minha.
A gente tem uma ótima aceitação do público brasileiro, na Europa tem uma galera que gosta da gente. Nosso primeiro EP foi vendido na Grécia. Tem um cara de São Paulo que ajudou nesta distribuição, tem um contato em algum país do Leste Europeu. Foi uma coisa artesanal, pessoal, o cara mandou um encarte, aquelas coisas de DVD e distribuiu para algumas pessoas lá, há três, quatro anos atrás. Foi o EP, quatro músicas, a qualidade não tão boa e teve uma aceitação.
Arandu tem uma galera que curte e uma que não curte, não tem um meio termo. A gente é comparado muito com folk rock, mas a gente toca metal, regional e indígena, mas o pessoal vai colocando rótulo, vai nominando. Então tem uma galera que aceita pra caramba, muito no Nordeste, em São Paulo tem uma galera que gosta da gente pra caramba. E tem uma galera que é do contra, que talvez seja aquela galera mais tradicional, do metal tradicional, aquela coisa de guitarra, baixo e bateria.
Em Brasília há uma galera que gosta de nosso trabalho, a gente conversa, troca informações, só que é muito claro para a gente hoje em dia, a maior parte do pessoal que curte nosso trabalho, inclusive a mídia, o pessoal que tem uma formação de opinião está fora de Brasília, estão no eixo Rio-São Paulo e Nordeste. O público nosso é muito mais formado fora de Brasília. Eu acho que talvez seja um pouco da questão da concorrência. Cada um focado em seu trabalho aqui em Brasília. Tem muita banda boa aqui em Brasília. E tem muita gente que acaba se juntando e formando panelinhas. Acaba que nosso som, por ser diferente, não consegue adentrar, por isto a gente fica meio fora aqui em Brasília. Esta galera nova, que curte mais o new metal, algo mais pesado, nosso som não agrada.
Sobre sobreviver da banda, para ser bem realista, acho que sim é possível, mas não vai ser algo tão fácil. Acho que o rock nacional e talvez mundial está muito complicado hoje em dia. Então, por exemplo, com CD não se ganha dinheiro. Tem o lance de show. Mas mesmo no show, mesmo em grande show, tem que tirar o que vai para empresário, o pessoal todo que trabalha na produção, então é difícil. Até banda grande, banda famosa, tem dificuldade para fazer show hoje em dia. Então o integrante tem que investir em outros segmentos para conseguir sobreviver. Com certeza é um sonho meu viver de música e a gente batalha pra caramba, mas enquanto isto não acontece vamos estudando, trabalhando, se virando. Mas se acontecer não vai ser algo tão fácil, em termos de cachês, vai ser algo talvez underground, mas não vai dar muito dinheiro, mas talvez dê para sobreviver. Estamos falando em médio e longo prazo. No caso da Arandu, como é uma coisa difícil de pegar. A música é até fácil de pegar, mas letra, a própria aparência da banda é uma coisa diferente, então não é tão fácil de pegar na grande mídia. Talvez a gente consiga viver de música, mas a médio e longo prazo.
Na América do Sul os cativos de tribos rivais eram engordados e sacrificados em rituais de antropofagia. A disputa por territórios era a causa principal das guerras ancestrais. Grandes concentrações populacionais trouxeram impactos ambientais nas terras ocupadas. Apesar disto, a relação mais estreita com os recursos naturais que os povos primitivos mantinham é o que mais se aproxima dos atuais conceitos de sustentabilidade e de sociedade igualitária. Há esperança de que a humanidade conviva harmoniosamente com o planeta no futuro?
Nájila:
Eu tenho esperança. Não sei, mas acho que a humanidade vai precisar passar por um processo muito chocante para ter uma conscientização ambiental. Acredito que as próximas gerações, tendo isto passado para a infância hoje em dia, a sustentabilidade, energias limpas. Eu acredito, tenho esperança, mas do jeito que caminhamos a Terra irá passar por um colapso, aí acredito em um processo de recuperação do que foi perdido.
Zhândio:
Esperança há. Até porque se não tivéssemos esperança não estaríamos tentando tocar as pessoas através da música. Mas teria que mudar muita coisa. Obviamente tudo começa pela conscientização e aí começam as lutas. Mas se as pessoas continuarem consumindo o que consomem, aí é colapso. O cara só porque tem dinheiro consome por cinco pessoas. Não tem como, se puder tirar da natureza.
A proposta da Arandu é um lance positivo. Na parte musical, em geral nas partes mais lentas, a musica da Arandu é algo tropical mesmo, para cima, que é muito da música regional indígena, escala maior, os tempos quebrados. Estamos em um clima quente, descontraído, positivo, então há isto de escala maior. Por exemplo, se você pegar as bandas do norte da Europa é aquela coisa mais densa. Os vídeos da Arandu são uma coisa super esperançosa, gravados de dia, tem muita luz. Então a ideia da banda é esta mesma. Mas não a esperança igual a do pastor que está aqui atrás (a entrevista foi gravada na Praça do Relógio, Taguatinga, Distrito Federal, em um sábado à tarde sob constante e estridente sonorização de algum pastor de alguma igreja evangélica da região).
Saulo:
Esperança a gente tem e as ideias vão surgindo justamente em função da necessidade pontual. Em geral as pessoas não pensam a coisa do longo prazo, vamos fazer algo para o futuro. As pessoas em geral só vêem o problema pontual, daquela circunstância e procuram resolver na hora. A não ser algumas questões como a emissão de gases do efeito estufa, sobre isto há alguma preocupação. Há a questão da destruição de rios, avanço das cidades sobre os mananciais, algo que está desencadeando falta de água. Nós, que somos o país da água, temos os maiores aqüíferos do mundo. Se nós estamos passando por este problema de falta de água, imagine os países secos, ou onde o cara tem que andar 20 km para pegar uma botija de água. Isto futuramente pode trazer problemas para a gente, a questão de guerra pela água. Escutamos falar que há escolas que ensinam lá fora que a Amazônia já é internacional. Em um mundo globalizado copia-se muito o que vem lá de fora e acaba perdendo a identidade. Mas ainda bem que há grupos, há pessoas que lutam contra isto e procuram despertar as pessoas contra isto.
Zhândio:
(...) temos que arrumar outro guitarrista. Se pilhar, fica como integrante permanente, mas principalmente para shows (...)
(...) a galera manda fotos para a gente pintados de índio, com o CD, falando curtimos sua pintura. Mas, claro, não é nossa a pintura (...)
Saulo:
(...) até em moda, a música da gente foi utilizada por um estilista que buscava a questão da brasilidade (...)
(...) a gente não tem muita influencia de música moderna. É o jeito Arandu de tocar mesmo, nada rebuscado ou erudito, é o jeito nosso mesmo (...)
Nájila:
(...) tem a letra em português que é bem crítica, chama "Povo Vermelho". Acho que vai dar o que falar pois fala da colonização, da exploração, do processo de extermínio que os índios ainda estão sofrendo (...)
Adriano:
(...) Arandu tem uma galera que curte e uma que não curte, não tem um meio termo (...)
Povo vermelho (faixa do CD Wdê Nnãkrda)
(...)
Os monstros do progresso continuaram a matar
Com armas, doenças, pregando sua fé
Ganância e ignorância comandam seus corações
Matavam nossos homens, roubavam nosso saber
Entraram para história como heróis
(...)
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
segunda-feira, 12 de maio de 2014
Terror revolucionário...muito mais do que um nome polêmico.
Terror! Bombas! Terrorismo!...Chamem a CIA, o Mossad, chamem o Bolsonaro!...nada disto. Mas afinal, o que está por detrás da banda Terror Revolucionário, do Distrito Federal? Algo que a sociedade deva temer? Por detrás não há nada que se esconda, algo que se pode ver adiante nesta entrevista. Pessoas comuns, cidadãos, pais de família, aos quais a única coisa a se temer é ser contagiado por sua atitude.
A banda é de 1999. Já se falava muito em terrorismo, mas foi a partir dos atentados nos EUA em 2001 que o termo ficou institucionalizado. No Brasil, neste momento fala-se em tipificar o crime de terrorismo. Terror Revolucionário é quase um sinônimo da guilhotina francesa. Vocês citam Karl Marx como inspiração pelo nome. Muitos posteriormente se inspiraram pela guilhotina. Também Hitler, Stalin e os generais da ditadura militar latino americana pregavam a eliminação de opositores. No meio underground já estamos habituados às posturas extremas, chocar o sistema por que tudo está uma merda mesmo, então batemos de frente. Para extravasar e aliviar a indignação. Para botar esta bagaça para fora.
Jayme, dos Delinquentes (banda HC do Pará) disse que o nome da banda pode eventualmente trazer alguma dificuldade para agendamento de shows. Nestes 15 anos de Terror Revolucionário suspeitam que alguém retaliou ou “desconvidou” a banda por acharem que vocês iriam falar para a molecada jogar bomba no Conic (área central de Brasília)?
Fellipe CDC (vocal):Eu acho que ninguém deixou de convidar a banda por conta do nome, mesmo porque a banda é em termos de som muito feia, então o cara descartaria a banda pelo som, não pelo nome. Mesmo onde eu trabalho a galera pergunta o nome da banda eu falo: Terror Revolucionário. Aí o pessoal acha forte e eu começo a rir. Thiago (guitarra): Quando a gente comenta no trampo o nome da banda acho que a primeira impressão é um choque. O pessoal fala “não tem um nome menos agressivo?”. Mas acho que como são pessoas que não estão nesse meio mais de bandas estranham mesmo, mas depois acostumam.
Fellipe: Acho que a gente faz parte de um meio muito fechado, por que gostamos, porque a grande maioria das pessoas não gosta do som que a gente faz, mas também não estamos interessados em mudar as letras, o nome, para agradar um número maior de pessoas. A gente está feliz e satisfeito desse jeito, tocando com nossos amigos, com nosso nome intacto e mais longe do mainstream, porque a gente sabe que rola muito merda no mainstream. Então preferimos ficarmos nós quatro amigos, tocando com nossos amigos. Sobre uma possível “revolução” considerando os últimos acontecimentos e as manifestações de rua (protestos, julgamento do mensalão, etc.) acho que uma grande parte já foi esquecido, já foi cooptado pela mídia e pelos próprios políticos para quem ela trabalha e quem ela coloca para dentro do poder. Se você for analisar hoje em Brasília a gente tem um governo que se diz esquerda e um governo federal que se diz esquerda. Hoje você vê que os partidos que são de direita estão protestando contra os partidos que eram de esquerda. Há infiltrações nos protestos para desestabilizar o governo. Eu tinha um professor tempos atrás que era do partido do Maluf. Quando o Maluf e o Lula não eram amigos como hoje são, ele fala que cansou de ir para a rua, inúmeras vezes, de madrugada, para pichar contra o PT, tipo: “Lula é a favor do aborto, o PT é a favor da união homossexual”. Ou seja, nesse jogo de poder acontece este jogo sujo e para quem não acompanha a política de perto vai achar que tudo aquilo que está escrito é a pura verdade. Acho interessante as pessoas lerem o máximo possível, não só um determinado segmento. A gente tem que saber o que fala a esquerda o que fala a direita e o que fala o centro para ele poder se posicionar e descobrir alguns podres, porque todos lados tem seus podres, e são muitos.
Jeferson (bateria): A apologia à violência, pelo nome da banda, para quem não conhece pode achar que é uma verdade, que a banda participa disto, mas achamos que atos terroristas não são bem vindos, porque acabam atingindo pessoas inocentes. Quem conhece a cena underground e quem conhece a banda em si sabe que a banda prega a pacificação, o diálogo sempre, a não violência, porque a música por si só já é violenta. A música é feita para a gente desabafar, para botar o bicho pra fora, como desabafo, a violência que a gente usa é só a música. A música é que é violenta. A maioria do pessoal se liga para ir atrás das letras das músicas. O pessoal que escuta, que curte Hardcore costuma ler o que há nas letras e procura entender o que a banda está querendo passar. Quanto à tesourarem a banda pelo nome, acredito que alguém já tenha tesourado mais pelo som da banda, não pelo nome. Se aconteceu não ficamos sabendo de tesourarem pelo nome. Eu particularmente acredito que a banda já tenha sofrido algum aparte de show mais por conta do som, por ser muito barulhento, ou muito sujo, ou porque ninguém entende nada, coisas do tipo.
Adriana (baixo,vocal): Quando a gente fala de terrorismo, de revolucionário, a questão é muito ampla. A gente pode revolucionar várias coisas, é mudar, é a mudança em várias coisas, para esquerda ou para direita. A questão do terror não é necessariamente a questão da violência, a gente pode colocar isto em palavras, em atitudes em si. Mas eu acho que algumas coisas devem ser mudadas radicalmente da forma como estão hoje. Nunca houve, pelo menos da minha parte alguma discriminação, mas confesso que as pessoas se assustam, as pessoas que estão fora do meio do rock. Estas pessoas podem pensar a questão do terrorismo, aquela coisa mais radical, sem ter muito diálogo, mas eu acho que é mais aterrorizar no sentido da mudança. A grande maioria dos amigos é da cena mesmo. No trabalho inicialmente eu não falava muito que tocava em banda, mas a partir do momento que o pessoal me conhece eu comecei a me abrir mais, mas não sou muito de misturar a questão pessoal com a questão profissional.
No show de 15 anos você, Thiago, disse que estava curtindo o clima de festa. Houve coisas bem legais como divisão do palco com convidados, rango vegano, poesia panfletaria, crianças se divertindo por lá e muito mais. Ao mesmo tempo, disse que na véspera rolou umas tretas no show gratuito de outras bandas no Conic. Há uma conversa entre a banda e o público da cena underground no sentido de que os shows sejam festas, verdadeiras celebrações de que estamos vivos?
Thiago: Este show, no Conic, que teve um dia antes da festa de 15 anos de Terror foi um show gratuito com um perfil totalmente diferente da galera que curte o Terror, era um pessoal mais street punk, oi e alguns caras querendo arrumar confusão por qualquer coisa, querendo quebrar vidro de loja e brigando entre eles mesmos. Não sei se chega a ser um movimento skinhead, mas parece que é algo que está crescendo. Então esta galera é mais difícil de curtir o som da gente, raramente este pessoal vem falar com a gente. Mas Brasília tem espaço para vários tipos de público, tem uma cena grande. Teve um outro show também por lá mais da galera do metal que de conhecido só tinha eu, o Fellipe e a galera do Maltrapilhos, totalmente diferente a galera do Terror Fest.
Fellipe: Já rolaram vários shows no Barbarella e nunca teve nenhum tipo de problema de briga, de tetra, isto é muito raro de acontecer. Alguns shows específicos tem uma possibilidade maior de dar confusão por causa de atritos ideológicos, porque acontece um momento em que uma pessoa não respeita a outra. Acho que mesmo não só dentro da cena punk há a questão do respeito, do ser humano, em mostrar o seu ponto de vista e não querer empurrar aquilo que se acha certo. E até mesmo o lance do respeito do ser humano, como animal, frente aos animais irracionais. No meu ponto de vista este é o grande mal da humanidade, mas acho que tem como melhorar.
Você falou, Fellipe, em outras entrevistas sobre o aspecto ideológico, que procura chamar para o Terror Fest bandas que não tenham vínculos com conteúdos discriminatórios. Organizou também um Headbanger´s Attack com bandas femininas. Se você não se metesse com ideologia teria mais facilidade em montar os shows? Teria escutado menos merda? Mesmo assim vale a pena?
Iria ter menos trabalho, porque para fazer este tipo de evento você tem que primeiro peneirar as bandas, para saber quem realmente acredita no que você acredita, quem realmente não desrespeita outra classe populacional. E com certeza haveria muito acesso a várias bandas, para chegar em um patrocinador e falar que determinada banda teria mais visibilidade, mas tem que ver se uma banda não agride ideologicamente outras pessoas. Dentro do próprio Headbangers Attack que é um festival mais voltado ao metal eu sempre insiro bandas de Hardcore, Crossover, até porque eu gosto de Hardcore. Mas acho que não teve bandas que se sentiram excluídas, mesmo porque é um festival de pequeno porte, então acho que tem bandas que nem fazem questão, se não foram chamadas não ligam. Uma das coisas que sempre falo, inclusive entre nós da banda Terror Revolucionário é sempre chamar a galera que não faz merda e também os caras que sempre colam nos nossos shows. Não adianta também a gente chamar um pessoal que sabemos que nunca vai aparecer nos nossos shows. Gosto também de misturar, de chamar um pessoal de regiões diferentes, para não ficar segmentando, para ter uma diversidade, justamente para ver se as pessoas de diferentes cidades se encontram e fazem alguma coisa juntas. A gente entende a ideia de coletividade e de cooperativismo, quando mandamos e-mails para as bandas falamos para o pessoal chamar os amigos, para chegar cedo no local para prestigiar também as outras bandas. Sabe, se você vai tocar, não toca e vai embora, fica para prestigiar as outras bandas. Sempre falo isto.
Você disse, Adriana, que tem ânimo para enfrentar a cena e para buscar um ambiente mais igualitário, com mais mulheres presentes, que é isto que lhe motiva. Na festa de 15 anos houve divisão de palco com várias outras mulheres. Um momento de afirmação bem legal. Em alguma ocasião, pelas andanças, você percebeu que há mais machismo em determinadas regiões? Em algum lugar é diferente?
Eu me considero feminista. Não posso falar de outras cenas, em outros lugares, pois não tenho um conhecimento profundo, não tenho como comparar a cena do DF com outros lugares. Tem muita banda com mulheres aqui, tem já um histórico. A questão de atitudes machistas é algo bastante amplo, a gente vê sim, mas é algo da sociedade em geral, a mulher como objeto, a mulher em segundo plano. Já aconteceu de desconsiderar bandas. Curtir o som e então passar a conhecer as atitudes dos integrantes, coisas absurdas, e hoje não curto mais. O som pode ser bom, mas tem que ter a atitude também.
Em fevereiro rolou o 3º Metal Solidário, no América Rock Club, uma iniciativa louvável da Eliane de Castro. O local tem uma estrutura excelente. Mesmo com o consumo do bar, muito provavelmente não pagaram-se os custos, considerando que a entrada foi a doação de livros e cadernos. Ela tira do próprio bolso. Também nós, inúmeras vezes fazemos eventos que levamos “prejuízo” e pagamos a conta. Quem entra numas destas faz por que bota o coração. Em outros cantos do Brasil faz-se eventos muitíssimos precários, com orçamentos medíocres, mas mesmo assim faz-se na raça. Brasília é exemplo mundial de desigualdade social, abrigamos agora o troféu de maior favela da América Latina (Sol Nascente em Ceilândia). Afinal, é mais fácil ou mais difícil viver da cena underground no Distrito Federal?
Fellipe: Diria que viver da cena underground é quase impossível. Tem muita gente que vem com a ideia de ganhar grana em Brasília e no primeiro mês já está voltando para casa. Porque não é só o custo de vida aqui, o cara tem que fazer uma série de coisas, tem que ter um empresário, tem que fazer um som que agrade a um número de pessoas. Agora quanto a competição, não sei, eu estou nesta de música há tanto tempo que nunca senti competir com ninguém. Faço porque gosto, gosto de fazer um som, de organizar eventos, mesmo tomando prejuízo direto, mas a gente vai teimando. É o negócio de colocar o coração na frente da razão. Se você colocar a razão na frente, fudeu, você para de fazer show, acaba com as bandas, fica em casa, indo da casa para o trabalho ou vai para uma igreja e cai no desespero. Eu acho que temos que fazer o que se gosta para sentir a liberdade da sua vida. Para um maior profissionalismo tem sempre aquele lance de se submeter a um empresário ir num Faustão da vida. Eu não iria nem fudendo, tocar playback, nunca. Então para quem quer ter o tal do sucesso tem que estar submisso a muitas coisas, então tem bandas que não querem alcançar o sucesso, querem simplesmente tocar, acho que é o caso do Terror, de outras bandas de Brasília, de São Paulo, de qualquer lugar do mundo acho que tem bandas que só querem tocar, querem se divertir.
Animados para o Mister Crack? Falem um pouco sobre o novo trabalho.
Thiago: O disco já está pronto a um ano ou mais. Já está gravado. São 21 minutos. Vamos finalizar hoje (abril 2014) a parte artística, da capa e tal.
Fellipe: A temática é o crack e a capa foi feita pelo Murilo de São Paulo com o lance do crack.
Thiago: Tem o meu irmão, que não é da cena underground, tem cerca de 30 anos mas está neste mundo de drogas há já quase 10 anos. Com o crack há uns 5, 6 anos. Aí fica nesta vida de vai e volta da clínica. Da última vez ficou 6 meses em uma clínica, está começando a voltar para casa e agora está trabalhando lá como voluntário, ajudando, fez um curso em Campinas. E a vida dele está toda atrasada por causa de drogas, que não deixa ele seguir em frente.
Fellipe: Tanto em Brasília, como São Paulo, Goiânia, alguns amigos nossos tiveram envolvimento muito forte com Crack. Cara, infelizmente não conheço ninguém que tenha saído limpo, até queria conhecer, porque a dependência é muito rápida e muito intensa. Então o cara tem que fazer de tudo para não entrar nesta, não experimentar, porque se entrar o risco dele continuar é muito grande. Sobre o som da banda no novo CD está metaleiro pra caralho, com o Barbosa.
Thiago (Barbosa):O som acho que está um pouco mais pesado, tem algumas influências de grind, de crossover, de grindcore. Tem música só com vocal feminino, da Adriana, com letra dela mesma. Acho que tá um som bem diversificado. Previsão de lançamento de mais uns três meses.
Adriana: Neste último disco as músicas já estavam prontas, só fiz a letra. Dentro de outras bandas que tive, fazia música, letra, isto era normal.
Fellipe: Tem quatro Distros (distribuidoras independentes) que vão entrar com a gente neste lançamento. Tem o Rock Mutante, de Campo Grande, Mato Grosso e outras, que foram as que acreditaram na gente. Vai ficar umas 200 cópias para cada. Já fechamos com as quatro. Tem uns vídeos disponíveis também no Youtube.
Thiago: A idéia é ir vendendo os CDzinhos, a 10, 15 contos e tem também as camisetas.
Fellipe: Vai ter uma tela nova de camiseta, que é a capa do Mister Crack e também outra que é o rótulo do CD, feita pelo Daniel que tocou no Flashover e agora tá tocando no Bruto.
Jeferson: Eu tenho informação de um sujeito que é conhecido, quem lembrar vai associar a pessoa. É um cara bem conhecido aqui do DF e uma vez foram a São Paulo para um show e até onde saiba tem sim certo envolvimento com o crack. E já faz um tempo que não ouço falar dele, não sei por onde anda, ninguém falou mais dele. E pessoas muito próximas que já usaram, que usam de vez em quando. Até onde eu sei há uns caras que usam e parecem que não se viciaram. Agora, já perdi amigos por conta das drogas, por conta de outras drogas, por envolvimento do tráfico, que é uma coisa que está assolando a sociedade. Nos EUA legalizaram parcialmente a maconha, arrecadaram milhões de dólares com isto. A legalização da maconha é um questionamento que todo mundo faz, se poderia dar certo ou não, para acabar com o tráfico e para uma riqueza dos governos. O governo qualquer ação que faça não é em benefício da população, todo mundo sabe disto. Eles querem sai ganhando de alguma forma. A gente fez esta temática Mr.Crack porque é uma coisa assustadora, é uma coisa que tá tomando não só o Brasil, mas também o mundo e acho muito perigoso, se as pessoas não se cuidarem. Se falar, vou usar só uma vez que não dá nada. Tem gente que não tem um auto controle, que nem a bebida, a bebida é uma droga legitimada, só que tem vários acidentes nas estradas e se vê que o cara bateu, matou, atropelou porque bebeu.
A gravação foi feita, no dia, com opções de cinco caixas para a bateria, duas de madeira e três de metal. Em reunião no estúdio escolhemos uma caixa e demorou muito para escolher ela, a timbragem dela. A gente gravou os sons em dois dias, no segundo dia que fomos escutar o que tinha gravado, o técnico de som percebeu algo diferente do segundo som em diante, no som da caixa de metal. Tinha algo errado na hora de ouvir a gravação crua. Ouvimos, ouvimos e tinha algo na bateria, fomos procurar e a pele de resposta da caixa estava rasgada. Gravei 14 músicas com a pele de resposta rasgada. Tivemos que refazer as músicas porque ia dar uma disparidade muito grande se continuasse assim, da décima quinta música até o final. Mas o resultado final do disco ficou bacana, está prestes a sair, já no forno, daqui a pouco está aí, mais tardar em junho e olhe lá. Vamos querer um show de lançamento, com certeza, mas não sabemos aonde, como e quando, mas vamos fazer. Umas cópias para vender nos shows, adesivo, camiseta. A gente queria muito lançar em vinil, mas as condições aqui no Brasil são caras e a banda não tinha grana suficiente, mas pretendemos sim lançar alguma coisa em vinil. Tem uns outros materiais da banda que estão prestes a sair em vinil. Como a gente já queria lançar logo o novo trabalho, o CD foi o que veio a calhar.
Mais sobre a banda Terror Revolucionário veja no You Tube, nas redes sociais em geral e também em:
Blog do Jayme, vocalistas dos Deliquentes:
http://caldodecranio.blogspot.com.br/2014/02/entrevista-terror-revolucionario-df.html
Rádio Cult 22:
http://www.cult22.com/blog/#sthash.siVhIuxy.dpbs
Zine oficial do DF e entorno:
http://www.zineoficial.com.br
Fellipe CDC (vocal):Eu acho que ninguém deixou de convidar a banda por conta do nome, mesmo porque a banda é em termos de som muito feia, então o cara descartaria a banda pelo som, não pelo nome. Mesmo onde eu trabalho a galera pergunta o nome da banda eu falo: Terror Revolucionário. Aí o pessoal acha forte e eu começo a rir. Thiago (guitarra): Quando a gente comenta no trampo o nome da banda acho que a primeira impressão é um choque. O pessoal fala “não tem um nome menos agressivo?”. Mas acho que como são pessoas que não estão nesse meio mais de bandas estranham mesmo, mas depois acostumam.
Fellipe: Acho que a gente faz parte de um meio muito fechado, por que gostamos, porque a grande maioria das pessoas não gosta do som que a gente faz, mas também não estamos interessados em mudar as letras, o nome, para agradar um número maior de pessoas. A gente está feliz e satisfeito desse jeito, tocando com nossos amigos, com nosso nome intacto e mais longe do mainstream, porque a gente sabe que rola muito merda no mainstream. Então preferimos ficarmos nós quatro amigos, tocando com nossos amigos. Sobre uma possível “revolução” considerando os últimos acontecimentos e as manifestações de rua (protestos, julgamento do mensalão, etc.) acho que uma grande parte já foi esquecido, já foi cooptado pela mídia e pelos próprios políticos para quem ela trabalha e quem ela coloca para dentro do poder. Se você for analisar hoje em Brasília a gente tem um governo que se diz esquerda e um governo federal que se diz esquerda. Hoje você vê que os partidos que são de direita estão protestando contra os partidos que eram de esquerda. Há infiltrações nos protestos para desestabilizar o governo. Eu tinha um professor tempos atrás que era do partido do Maluf. Quando o Maluf e o Lula não eram amigos como hoje são, ele fala que cansou de ir para a rua, inúmeras vezes, de madrugada, para pichar contra o PT, tipo: “Lula é a favor do aborto, o PT é a favor da união homossexual”. Ou seja, nesse jogo de poder acontece este jogo sujo e para quem não acompanha a política de perto vai achar que tudo aquilo que está escrito é a pura verdade. Acho interessante as pessoas lerem o máximo possível, não só um determinado segmento. A gente tem que saber o que fala a esquerda o que fala a direita e o que fala o centro para ele poder se posicionar e descobrir alguns podres, porque todos lados tem seus podres, e são muitos.
Jeferson (bateria): A apologia à violência, pelo nome da banda, para quem não conhece pode achar que é uma verdade, que a banda participa disto, mas achamos que atos terroristas não são bem vindos, porque acabam atingindo pessoas inocentes. Quem conhece a cena underground e quem conhece a banda em si sabe que a banda prega a pacificação, o diálogo sempre, a não violência, porque a música por si só já é violenta. A música é feita para a gente desabafar, para botar o bicho pra fora, como desabafo, a violência que a gente usa é só a música. A música é que é violenta. A maioria do pessoal se liga para ir atrás das letras das músicas. O pessoal que escuta, que curte Hardcore costuma ler o que há nas letras e procura entender o que a banda está querendo passar. Quanto à tesourarem a banda pelo nome, acredito que alguém já tenha tesourado mais pelo som da banda, não pelo nome. Se aconteceu não ficamos sabendo de tesourarem pelo nome. Eu particularmente acredito que a banda já tenha sofrido algum aparte de show mais por conta do som, por ser muito barulhento, ou muito sujo, ou porque ninguém entende nada, coisas do tipo.
Adriana (baixo,vocal): Quando a gente fala de terrorismo, de revolucionário, a questão é muito ampla. A gente pode revolucionar várias coisas, é mudar, é a mudança em várias coisas, para esquerda ou para direita. A questão do terror não é necessariamente a questão da violência, a gente pode colocar isto em palavras, em atitudes em si. Mas eu acho que algumas coisas devem ser mudadas radicalmente da forma como estão hoje. Nunca houve, pelo menos da minha parte alguma discriminação, mas confesso que as pessoas se assustam, as pessoas que estão fora do meio do rock. Estas pessoas podem pensar a questão do terrorismo, aquela coisa mais radical, sem ter muito diálogo, mas eu acho que é mais aterrorizar no sentido da mudança. A grande maioria dos amigos é da cena mesmo. No trabalho inicialmente eu não falava muito que tocava em banda, mas a partir do momento que o pessoal me conhece eu comecei a me abrir mais, mas não sou muito de misturar a questão pessoal com a questão profissional.
No show de 15 anos você, Thiago, disse que estava curtindo o clima de festa. Houve coisas bem legais como divisão do palco com convidados, rango vegano, poesia panfletaria, crianças se divertindo por lá e muito mais. Ao mesmo tempo, disse que na véspera rolou umas tretas no show gratuito de outras bandas no Conic. Há uma conversa entre a banda e o público da cena underground no sentido de que os shows sejam festas, verdadeiras celebrações de que estamos vivos?
Thiago: Este show, no Conic, que teve um dia antes da festa de 15 anos de Terror foi um show gratuito com um perfil totalmente diferente da galera que curte o Terror, era um pessoal mais street punk, oi e alguns caras querendo arrumar confusão por qualquer coisa, querendo quebrar vidro de loja e brigando entre eles mesmos. Não sei se chega a ser um movimento skinhead, mas parece que é algo que está crescendo. Então esta galera é mais difícil de curtir o som da gente, raramente este pessoal vem falar com a gente. Mas Brasília tem espaço para vários tipos de público, tem uma cena grande. Teve um outro show também por lá mais da galera do metal que de conhecido só tinha eu, o Fellipe e a galera do Maltrapilhos, totalmente diferente a galera do Terror Fest.
Fellipe: Já rolaram vários shows no Barbarella e nunca teve nenhum tipo de problema de briga, de tetra, isto é muito raro de acontecer. Alguns shows específicos tem uma possibilidade maior de dar confusão por causa de atritos ideológicos, porque acontece um momento em que uma pessoa não respeita a outra. Acho que mesmo não só dentro da cena punk há a questão do respeito, do ser humano, em mostrar o seu ponto de vista e não querer empurrar aquilo que se acha certo. E até mesmo o lance do respeito do ser humano, como animal, frente aos animais irracionais. No meu ponto de vista este é o grande mal da humanidade, mas acho que tem como melhorar.
Você falou, Fellipe, em outras entrevistas sobre o aspecto ideológico, que procura chamar para o Terror Fest bandas que não tenham vínculos com conteúdos discriminatórios. Organizou também um Headbanger´s Attack com bandas femininas. Se você não se metesse com ideologia teria mais facilidade em montar os shows? Teria escutado menos merda? Mesmo assim vale a pena?
Iria ter menos trabalho, porque para fazer este tipo de evento você tem que primeiro peneirar as bandas, para saber quem realmente acredita no que você acredita, quem realmente não desrespeita outra classe populacional. E com certeza haveria muito acesso a várias bandas, para chegar em um patrocinador e falar que determinada banda teria mais visibilidade, mas tem que ver se uma banda não agride ideologicamente outras pessoas. Dentro do próprio Headbangers Attack que é um festival mais voltado ao metal eu sempre insiro bandas de Hardcore, Crossover, até porque eu gosto de Hardcore. Mas acho que não teve bandas que se sentiram excluídas, mesmo porque é um festival de pequeno porte, então acho que tem bandas que nem fazem questão, se não foram chamadas não ligam. Uma das coisas que sempre falo, inclusive entre nós da banda Terror Revolucionário é sempre chamar a galera que não faz merda e também os caras que sempre colam nos nossos shows. Não adianta também a gente chamar um pessoal que sabemos que nunca vai aparecer nos nossos shows. Gosto também de misturar, de chamar um pessoal de regiões diferentes, para não ficar segmentando, para ter uma diversidade, justamente para ver se as pessoas de diferentes cidades se encontram e fazem alguma coisa juntas. A gente entende a ideia de coletividade e de cooperativismo, quando mandamos e-mails para as bandas falamos para o pessoal chamar os amigos, para chegar cedo no local para prestigiar também as outras bandas. Sabe, se você vai tocar, não toca e vai embora, fica para prestigiar as outras bandas. Sempre falo isto.
Você disse, Adriana, que tem ânimo para enfrentar a cena e para buscar um ambiente mais igualitário, com mais mulheres presentes, que é isto que lhe motiva. Na festa de 15 anos houve divisão de palco com várias outras mulheres. Um momento de afirmação bem legal. Em alguma ocasião, pelas andanças, você percebeu que há mais machismo em determinadas regiões? Em algum lugar é diferente?
Eu me considero feminista. Não posso falar de outras cenas, em outros lugares, pois não tenho um conhecimento profundo, não tenho como comparar a cena do DF com outros lugares. Tem muita banda com mulheres aqui, tem já um histórico. A questão de atitudes machistas é algo bastante amplo, a gente vê sim, mas é algo da sociedade em geral, a mulher como objeto, a mulher em segundo plano. Já aconteceu de desconsiderar bandas. Curtir o som e então passar a conhecer as atitudes dos integrantes, coisas absurdas, e hoje não curto mais. O som pode ser bom, mas tem que ter a atitude também.
Em fevereiro rolou o 3º Metal Solidário, no América Rock Club, uma iniciativa louvável da Eliane de Castro. O local tem uma estrutura excelente. Mesmo com o consumo do bar, muito provavelmente não pagaram-se os custos, considerando que a entrada foi a doação de livros e cadernos. Ela tira do próprio bolso. Também nós, inúmeras vezes fazemos eventos que levamos “prejuízo” e pagamos a conta. Quem entra numas destas faz por que bota o coração. Em outros cantos do Brasil faz-se eventos muitíssimos precários, com orçamentos medíocres, mas mesmo assim faz-se na raça. Brasília é exemplo mundial de desigualdade social, abrigamos agora o troféu de maior favela da América Latina (Sol Nascente em Ceilândia). Afinal, é mais fácil ou mais difícil viver da cena underground no Distrito Federal?
Fellipe: Diria que viver da cena underground é quase impossível. Tem muita gente que vem com a ideia de ganhar grana em Brasília e no primeiro mês já está voltando para casa. Porque não é só o custo de vida aqui, o cara tem que fazer uma série de coisas, tem que ter um empresário, tem que fazer um som que agrade a um número de pessoas. Agora quanto a competição, não sei, eu estou nesta de música há tanto tempo que nunca senti competir com ninguém. Faço porque gosto, gosto de fazer um som, de organizar eventos, mesmo tomando prejuízo direto, mas a gente vai teimando. É o negócio de colocar o coração na frente da razão. Se você colocar a razão na frente, fudeu, você para de fazer show, acaba com as bandas, fica em casa, indo da casa para o trabalho ou vai para uma igreja e cai no desespero. Eu acho que temos que fazer o que se gosta para sentir a liberdade da sua vida. Para um maior profissionalismo tem sempre aquele lance de se submeter a um empresário ir num Faustão da vida. Eu não iria nem fudendo, tocar playback, nunca. Então para quem quer ter o tal do sucesso tem que estar submisso a muitas coisas, então tem bandas que não querem alcançar o sucesso, querem simplesmente tocar, acho que é o caso do Terror, de outras bandas de Brasília, de São Paulo, de qualquer lugar do mundo acho que tem bandas que só querem tocar, querem se divertir.
Animados para o Mister Crack? Falem um pouco sobre o novo trabalho.
Thiago: O disco já está pronto a um ano ou mais. Já está gravado. São 21 minutos. Vamos finalizar hoje (abril 2014) a parte artística, da capa e tal.
Fellipe: A temática é o crack e a capa foi feita pelo Murilo de São Paulo com o lance do crack.
Thiago: Tem o meu irmão, que não é da cena underground, tem cerca de 30 anos mas está neste mundo de drogas há já quase 10 anos. Com o crack há uns 5, 6 anos. Aí fica nesta vida de vai e volta da clínica. Da última vez ficou 6 meses em uma clínica, está começando a voltar para casa e agora está trabalhando lá como voluntário, ajudando, fez um curso em Campinas. E a vida dele está toda atrasada por causa de drogas, que não deixa ele seguir em frente.
Fellipe: Tanto em Brasília, como São Paulo, Goiânia, alguns amigos nossos tiveram envolvimento muito forte com Crack. Cara, infelizmente não conheço ninguém que tenha saído limpo, até queria conhecer, porque a dependência é muito rápida e muito intensa. Então o cara tem que fazer de tudo para não entrar nesta, não experimentar, porque se entrar o risco dele continuar é muito grande. Sobre o som da banda no novo CD está metaleiro pra caralho, com o Barbosa.
Thiago (Barbosa):O som acho que está um pouco mais pesado, tem algumas influências de grind, de crossover, de grindcore. Tem música só com vocal feminino, da Adriana, com letra dela mesma. Acho que tá um som bem diversificado. Previsão de lançamento de mais uns três meses.
Adriana: Neste último disco as músicas já estavam prontas, só fiz a letra. Dentro de outras bandas que tive, fazia música, letra, isto era normal.
Fellipe: Tem quatro Distros (distribuidoras independentes) que vão entrar com a gente neste lançamento. Tem o Rock Mutante, de Campo Grande, Mato Grosso e outras, que foram as que acreditaram na gente. Vai ficar umas 200 cópias para cada. Já fechamos com as quatro. Tem uns vídeos disponíveis também no Youtube.
Thiago: A idéia é ir vendendo os CDzinhos, a 10, 15 contos e tem também as camisetas.
Fellipe: Vai ter uma tela nova de camiseta, que é a capa do Mister Crack e também outra que é o rótulo do CD, feita pelo Daniel que tocou no Flashover e agora tá tocando no Bruto.
Jeferson: Eu tenho informação de um sujeito que é conhecido, quem lembrar vai associar a pessoa. É um cara bem conhecido aqui do DF e uma vez foram a São Paulo para um show e até onde saiba tem sim certo envolvimento com o crack. E já faz um tempo que não ouço falar dele, não sei por onde anda, ninguém falou mais dele. E pessoas muito próximas que já usaram, que usam de vez em quando. Até onde eu sei há uns caras que usam e parecem que não se viciaram. Agora, já perdi amigos por conta das drogas, por conta de outras drogas, por envolvimento do tráfico, que é uma coisa que está assolando a sociedade. Nos EUA legalizaram parcialmente a maconha, arrecadaram milhões de dólares com isto. A legalização da maconha é um questionamento que todo mundo faz, se poderia dar certo ou não, para acabar com o tráfico e para uma riqueza dos governos. O governo qualquer ação que faça não é em benefício da população, todo mundo sabe disto. Eles querem sai ganhando de alguma forma. A gente fez esta temática Mr.Crack porque é uma coisa assustadora, é uma coisa que tá tomando não só o Brasil, mas também o mundo e acho muito perigoso, se as pessoas não se cuidarem. Se falar, vou usar só uma vez que não dá nada. Tem gente que não tem um auto controle, que nem a bebida, a bebida é uma droga legitimada, só que tem vários acidentes nas estradas e se vê que o cara bateu, matou, atropelou porque bebeu.
A gravação foi feita, no dia, com opções de cinco caixas para a bateria, duas de madeira e três de metal. Em reunião no estúdio escolhemos uma caixa e demorou muito para escolher ela, a timbragem dela. A gente gravou os sons em dois dias, no segundo dia que fomos escutar o que tinha gravado, o técnico de som percebeu algo diferente do segundo som em diante, no som da caixa de metal. Tinha algo errado na hora de ouvir a gravação crua. Ouvimos, ouvimos e tinha algo na bateria, fomos procurar e a pele de resposta da caixa estava rasgada. Gravei 14 músicas com a pele de resposta rasgada. Tivemos que refazer as músicas porque ia dar uma disparidade muito grande se continuasse assim, da décima quinta música até o final. Mas o resultado final do disco ficou bacana, está prestes a sair, já no forno, daqui a pouco está aí, mais tardar em junho e olhe lá. Vamos querer um show de lançamento, com certeza, mas não sabemos aonde, como e quando, mas vamos fazer. Umas cópias para vender nos shows, adesivo, camiseta. A gente queria muito lançar em vinil, mas as condições aqui no Brasil são caras e a banda não tinha grana suficiente, mas pretendemos sim lançar alguma coisa em vinil. Tem uns outros materiais da banda que estão prestes a sair em vinil. Como a gente já queria lançar logo o novo trabalho, o CD foi o que veio a calhar.
Mais sobre a banda Terror Revolucionário veja no You Tube, nas redes sociais em geral e também em:
Blog do Jayme, vocalistas dos Deliquentes:
http://caldodecranio.blogspot.com.br/2014/02/entrevista-terror-revolucionario-df.html
Rádio Cult 22:
http://www.cult22.com/blog/#sthash.siVhIuxy.dpbs
Zine oficial do DF e entorno:
http://www.zineoficial.com.br
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Jayme, dos Delinquentes de Belém: mais de duas décadas de movimento Punk



...........................................................................................................................................Belém, capital do Pará e "porta de entrada da Amazônia" apresenta ao mesmo tempo caos urbano e cultura tradicional. A cidade localiza-se às margens da Baía do Guajará, que é a foz do maior rio do mundo. Nesta entrevista, dada ao CHC em dezembro de 2008, vemos que o movimento Punk, desde seu primórdio, também germinava fora do eixo mais tradicionalista.
Os "Deliquentes" são de 85, que foi uma época fundamental para todo movimento punk brasileiro. Em São Paulo e Brasília tudo estava em efervescência, como era o movimento em Belém nesta época? Como chegavam as informações aqui?
Meu início do movimento punk aqui foi em 85. Eu me aproximei do pequeno núcleo que já existia em Icoarací (distrito de Belém) desde, acho que 82 ou 83, que era um pessoal do “Insolência Pública”, mais um pessoal do “Efeitos Colaterais”. Então este pessoal, não sei como, conseguiu informações sobre o movimento punk, mas tinha um contato certo, tinham um contato da galera que fazia o movimento em São Paulo, na Bahia, na época tudo era por carta. Este pessoal tinha fitas cassete enviadas por carta da Europa, que bandas de lá mandavam. Bandas que nem tinham discos mandavam de lá. Existia um contato certo, eles não tinham uma informação deturpada. Havia também fanzines que a galera mandava do exterior e os que vinham de São Paulo. Na maioria eram xerox mas tinham alguns também de gráfica. Havia o ”Espunk” de Salvador, o “Pesadelo” de São Paulo, o “Lute ou Vegete”. Então chegava todo este material ao pessoal de Icoarací e era informação certa, não era coisa depurtada que a mídia divulgada. Era coisa vinda do próprio movimento punk mesmo. E havia também um fanzine em Icoarací, que era do Régis e do Beto. Isto já havia quando me cheguei junto com este pessoal, querendo saber mais sobre este movimento que havia iniciado em Icoarací.
A época era também de auto-afirmação do movimento Skinhead no Brasil, como era a relação entre punks, carecas e bangers em Belém?
O primeiro foco do movimento Skinhead aqui saiu realmente do Punk de Belém, com um pessoal que tinha algumas idéias neste sentido, mas isto já para 89, algo assim. As primeiras pessoas neste sentido, vamos dizer, eram dóceis demais para o que entendemos do conceito de Skinhead, mas os que foram recrutados a partir de então já vieram com esta estória da violência. Mas em pouco tempo estas pessoas viram que a coisa não era como fantasiavam, muitos pularam fora. Hoje em dia uma destas pessoas é um escritor anarquista, ou seja, não tinha muito a ver, talvez na época eles se identificaram mais com o visual mesmo.
Houve também uma outra galera dos carecas após isto. Nós, dos Punks, nunca chegamos a ter um confronto direto como eles, o confronto deles era mais com Headbangers. No entanto nós não andávamos juntos, era separado, mas não tínhamos atrito. Belém era uma cidade pequena, não tinha como não se encontrar. Quando passávamos juntos, agente se cumprimentava, mas cada um ia para seu canto. A treta deles era mais com metal mesmo. Nós, os Punks, éramos bem pacíficos, não tinha esta estória de sair para brigar.
O nome "Delinquentes" é forte e facilmente associável com criminalidade. Na década de 80 e começo nos anos 90 ainda havia uma forte presença da cultura de repressão do estado. A banda sofreu alguma retaliação ou passou por momentos difíceis nesta época?
Não chegou a haver retaliação da polícia na época. O que houve, e ainda hoje há é retaliação no sentido de não colocar a banda em determinados festivais. Por exemplo, num grande festival há pouco tempo, o dono chegou e disse que não poderia colocar uma banda como os Delinquentes no festival, por uma associação direta com o nome da banda, algo que não poderia entrar no cartaz do festival.
No início da banda, ainda no resquício da ditadura, não chegou a haver treta direta com a polícia, acredito devido ao fato de que nossos eventos na época eram muito pouco divulgados. Agente mesmo ia para a Praça do Operário, Praça da República, agente mesmo arrumava um palco, alugava um som, agente que digo era o movimento da época. Juntava quatro ou cinco bandas, dividia as despesas. Acho que na época era até um diferencial do que ocorre hoje. Tinha várias bandas fazendo acontecer mesmo, se exercitando, e como era de pequena proporção acho que a polícia nem ficava sabendo (risos). Nunca rolou uma grande batida da polícia, indo gente para cadeia, acho que rolava mais com relação ao visual. O que rolava era tomarem o coturno, a polícia chegava a tirar, mas creio que comparado ao que agente escutava do que ocorria em São Paulo, era bem leve.
Como é a relação da banda com outros grupos do Norte/Nordeste?Você acha que uma integração maior pode ser uma opção para o fortalecimento da cena Punk/HC destas regiões?
Primeiro, deixar claro que o Delinquentes não toca somente com bandas Punk, tocamos com bandas de metal, de rock, de todos estilos. Temos uma certa afinidade com bandas do Nordeste, já fomos várias vezes. Fortaleza, Maranhão já fomos quatro vezes, já fizemos uma turnê pelo Nordeste em que passamos um mês, fomos em seis ou sete estados. Isto foi em 2000. Tem uma cena legal lá e acredito que nossos contatos sejam mais fortes com o Nordeste do que com o Norte, o que é uma pena. Não é que agente não procure, mas realmente nosso contato com o Norte é mais fraco. Já fomos tocar em Macapá. Pela distância, muitas vezes é mais fácil ir para São Luis do que para Manaus, por exemplo. A passagem Belém-Manaus é mais cara do que Belém-São Paulo, é um absurdo mas é o que acontece.
Então, sempre a principal dificuldade é a distância. Muita gente, inclusive jornalistas acha que isto é uma desculpa nossa. Desculpa o caralho!, esta distância daqui para outras cidades é um pesadelo, é um fardo.
O estado do Pará é um tema fértil pela má distribuição de terras, violência no campo, caos urbano, violação de direitos humanos, entre outros.
Fazer música de protesto no Pará é mais fácil ou mais difícil frente à tantos estilos característicos regionais que atraem um público muito maior, com o tecnobrega, calypso, etc.?
Existe uma peculiaridade com as bandas daqui que fazem um som mais ácido, mais crítico, de protesto, porquê há bandas que preferem falar de outras coisas. As bandas mais de contestação tendem a falar mais da realidade. Há bandas no Nordeste que falam da miséria e da seca, que são coisas muito fortes lá. Então para gente é fácil falar das coisas daqui, pois é coisa que agente vê, vemos nos jornais, os encontros indígenas que ouvimos, então agente acaba tendo esta cara própria. Mas os Delinqüentes podem falar do índio daqui como pode falar, por exemplo, do acidente nuclear de Chernobyl. Ou seja, não ficamos presos à temática Amazônica, regionalista.
Há uma galera com mais visão que às vezes pergunta como é a vida aqui em Belém, na Amazônia. Mas há gente que tem a mentalidade que aqui tem jacaré pela rua, isto é um coisa velha que ainda rola muito, o desconhecimento. Acho até natural, o Brasil é muito grande, eu mesmo me confundo com estados do Sul, às vezes chamamos de sul, mas é sudeste, até isto. Mas há uma galera lá que desconhece muito daqui. Tudo bem que aqui cai manga na cabeça mesmo, que chove todo dia, mas porra, não tem jacaré andando na rua.
Qual seu recado para quem julga que Belém não tem vocação para o rock?
Belém tem a cara de tudo. Todos tipos de vazões artístico culturais existem aqui. Há algumas tendências que estão mais na mídia em determinada época. A própria cena do rock aqui é uma montanha russa. Eu acompanhei a cena de Belém desde os anos 80 e houve realmente vários altos e baixos. Várias vezes houve épocas mais fortes. Vai e volta. Talvez hoje agente esteja em um período de entressafra, porém mais devidos à outros fatores. Quando se fala em melhor momento não é em relação à qualidade das bandas, não é isto, as bandas estão muito boas. Por exemplo, estamos com um problema muito grande quanto a falta de espaço para tocar, tem banda que até acaba por isto, mas a maioria é insistente e continua. A prova da qualidade das bandas é o pessoal indo para fora, “A Euterpia”, “Madame Saatan”, vai ter um festival em Macapá com três ou quatro bandas locais lá. As bandas de metal todas estão saindo também, ou seja, Belém tem um potencial muito grande. Agente tem uns períodos em que o terreno fica menos fértil, como a questão de menos espaço para tocar, a mídia apostando menos no rock, é isto que está rolando.
Quais os melhores momentos que você destacaria em 23 anos à frente dos "Delinquentes"?
Para mim, as melhores coisas, também para a banda, foi a turnê no Nordeste em 2000, que foi um mês tocando, conhecendo pessoas e lugares. Tocamos em São Luís, Fortaleza, João Pessoa, Maceió, tudo direto, aí depois Salvador, Aracaju. Foi o lançamento do “Pequenos Delitos” (primeiro demo da banda). Citaria também o terceiro “Rock 24 horas” (evento aberto ao público em geral) que ocorreu em 1993, na Praça Waldemar Henrique. Infelizmente rolou uma porrada que terminou num caos o evento, mas fomos a segunda banda a tocar, depois do “Retaliatory”. Na hora do Delinquentes eu vi uma praça inteira pogando, foi uma visão única, inesquecível. A treta toda rolou lá pela oitava, décima banda, infelizmente. Citaria shows antigos também e novos como o Memorial do Rock, no Memorial dos Povos há uns dois ou três anos, com a formação nova, atual, da banda. Foi um festival organizado pela Funtelpa (Rádio e TV Cultura do Pará). Houve viagens antigas bem marcantes também, mais pelo convívio com os punks, dormindo em rodoviária, esta época marcou pela história de convivência com o pessoal.
Quais os planos para os "Delinquentes" em 2009?
Primeiro lançar o CD pois houve um pequeno atraso. Será um CD oficial. A idéia era lançar CD e DVD, houve um engate mas ainda estamos com o projeto para lançar. Existe a “Lei Tó Teixeira”, que é uma lei de incentivo. Acontece que agente consegue a carta de patrocínio, mas na hora de chegar nas empresas privadas encontramos portas fechadas, as empresas querem apoiar geralmente MPB ou outros estilos, a maioria das empresas não quer o nome vinculado, então temos que encontrar alguma empresa que seja de conhecidos ou amigos, para poder ter este aval.
Primeiro queremos lançar o CD que já está gravado há mais de um ano, está mixado também, só falta prensar, tem 17 músicas, uns 35-40 minutos. Já tem nome, nele há até um cover de música regional, uma música chamada “Pescador” do “Mestre Lucindo” de Carimbó. O CD sairá no início de 2009, esperamos, e o DVD já mais para o decorrer do ano.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Entrevista com AÇÃO DIRETA



Desde 1987 na ativa, Gepeto, o vocalista e um dos fundadores da banda de Hardcore AÇÃO DIRETA, conversou com o Consciência Hardcore. O AÇÃO DIRETA, banda gerada em uma região proletária de São Paulo, o ABC paulista, é atualmente uma das bandas mais importantes da cena Hardcore mundial. Veja a íntegra da entrevista gravada em 01 de agosto de 2008:
Nestes 20 anos com o Ação Direta, no Brasil e em viagens pelo exterior, houve em algum momento retaliação ou discriminação devido à postura politizada da banda, em especial com grupos de ultra-direita?
Fizemos quatro turnês até hoje, foram em 97, 99, 2001 e 2004. Em todas estas turnês, nosso contato principal foi com a cena alternativa européia. Dentro desta cena alternativa não existe este tipo de preconceito, existe uma receptividade e uma abertura grande à cultura sul-americana. Nós fomos convidados, já existiam algumas pessoas que ajudaram a organizar, correspondentes antigos que divulgavam a banda.
Ou seja, dentro deste cenário você não encontra este tipo de problema, são ativistas que são justamente contra este tipo de preconceito, este tipo de discriminação.
Não chegamos nem a encontrar com o pessoal de ultra-direita. Sabemos que existe um foco forte desta facção na Europa, mas não tivemos este tipo de contato nos circuitos alternativos que freqüentamos.
No entanto tivemos um episódio de descriminação ao tentar entrar na Inglaterra na turnê de 2004, quando fomos barrados pela imigração e aí sim houve um episódio de puro preconceito, pois fomos barrados, impedidos de entrar no país e deportados. Mas, claro que existe sim um preconceito e está embutido ali na sociedade.
Sabemos que existem sim manifestações de ultra-direita contrárias à cultura mais alternativa só que não são tão freqüentes. Quando acontecem são eventos grandes, organizados e acabam em confusão. A resistência a este pessoal também é grande e é por isto que vemos que tomam proporções maiores, de quebra-quebra geral, porque as manifestações deles são grandes, mas diria que a resistência é maior ainda, por isto ocorrem confrontos generalizados com polícia, com grupos de outras facções, etc. Vimos cartazes e ouvimos estórias de manifestações realmente grandes neste sentido, mas não são muito freqüentes.
Como você vê a percepção dos estrangeiros frente à Amazônia brasileira? De que forma lhe afetou o fato de escutar relatos sobre a Amazônia no exterior?
Acho interessante este assunto no sentido de que em nossas viagens à Europa quase não ouvimos sobre a Amazônia. No geral algumas pessoas sabem que no Brasil há verde, praias, uma natureza bacana, mas vimos que o assunto Amazônia está vindo à tona após a discussão do aquecimento global. Hoje, diria até que virou uma moda discutir a Amazônia e vemos até que há um monte de picaretagem envolvendo os gringos, comprando, vendendo a Amazônia, fazendo patentes de produtos, marcas. Agora que as autoridades brasileiras estão tratando do assunto, ou que está sendo mais divulgado, vemos realmente como um absurdo, pois eles também compram a madeira nossa lá. Existe um grupo de burgueses europeus que compram patentes, ouro, madeira, couro dos animais. Então vejo que há muita hipocrisia nesta discussão, ela está surgindo meio tardia, mas é válida porque está alertando a população brasileira e global também para este assunto, porque realmente a Amazônia virou um foco agora. Eu vejo este assunto como muito delicado, pois é preciso parar com esta onda de desmatamento, situações com animais e passar a cuidar da Amazônia, pois é um patrimônio crucial e valioso que precisamos cuidar, pois é nosso, é sul-americano.
A ação direta é uma forma de atuação independente do estado concebida pelos ideais anarquistas. No entanto, muitos confundem anarquismo com ausência de política. Em um mundo cada vez mais polarizado entre esquerda e direita, cabe atualmente o voto nulo?
Quanto ao anarquismo sempre tivemos interesse na filosofia do anarquismo, só que vivemos em um mundo extremamente capitalista então a realidade é o capitalismo, não é o anarquismo. Acho que você pode extrair várias coisas bacanas da filosofia do anarquismo e reproduzi-las no seu dia a dia. Como a coisa da coletividade, da igualdade, do respeito, de ações conjuntas, tudo isto pode ser introduzido no seu dia a dia, de forma simples para você estar melhorando e cada um fazendo a sua parte.
Mas não podemos ficar com a utopia de um mundo sem governo. Eu acho uma utopia, pois estamos em 2008, com tecnologia, globalização, não há como ficar viajando nesta utopia. Acho que extrair coisas do anarquismo para aplicar no dia a dia é um fato e é isto que fazemos, mas sabemos da realidade que é o capitalismo.
Quanto à política, você ter o poder do voto na mão é uma responsabilidade grande. Você pode dizer que quer anular o voto e dizer que está aparte de tudo isto que está aí, que não está nem aí com nada, como uma forma de manifestação. Mas acho que acima de tudo, você deve votar e cobrar daquela pessoa. Mas acho que o povo ainda tem muita dificuldade, não é educado para cobrar, as pessoas deveriam se envolver com isto na medida que se envolvem com partidas de futebol. Deveríamos estar cobrando este pessoal e não simplesmente anulando o voto, mas isto é uma decisão pessoal de cada um. Acho que o voto nulo como um demonstrativo de insatisfação é válido.
O AD sempre alertou para o ciclo vicioso das atitudes negativas e da violência gratuita. Ao mesmo tempo em que a violência cotidiana parece inconcebível com a vida em sociedade, a violência institucional é uma ferramenta extrema arriscada que eventualmente pode gerar resultados, como no caso recente dos estudantes da Universidade de Brasília que meteram o pé na porta, invadiram a reitoria e exigiram a saída de um reitor corrupto. Você pegaria em armas para defender a causa que tem acreditado por toda sua vida?
Não. Sou contra armas, não gosto de armas, detesto. Acho que isto gera uma falsa sensação de poder, gera outros tipos de abuso, de violência, porque as pessoas não estão preparadas para esta consciência, o Brasil, a América do Sul ainda não tem esta consciência, tanto é que somos subdivididos em ditadores, milícias e isto tudo geraria mais violência. Sou totalmente contra armas, não pegaria em armas, não morreria por isto. Agora, existe um outro tipo de situação, a situação extrema, uma defesa da vida, da sua família, uma guerra, por exemplo, neste caso não saberia dizer se sim ou se não, pois em uma situação extrema você vai reagir. Toda ação vai ter uma reação. Não detenho armas, não curto armas e se puder fazer uma campanha contra eu farei. Achei válida a campanha do desarmamento, mas infelizmente não foi dada uma seqüência, acho que a campanha deveria ser novamente trabalhada e deveria ser constante. Sou favorável ao desarmamento.
No socialismo há casos de má interpretação e ineficácia como em qualquer regime político. O capitalismo desenfreado, por vez, está por trás de tragédias como as guerras mundiais e as matanças de civis no Oriente Médio. Herbert José de Souza, o “Betinho” disse certa vez: “Democracia serve para todos ou não serve para nada”. Há democracia no Brasil?
Não, de maneira alguma. Aqui não podemos manifestar nossas opiniões, não existe uma democracia porque a lei não é igual para todos. Estamos longe de uma democracia, a gente avançou se formos considerar a história do Brasil, conquistamos alguns pontos mas ainda estamos longe de uma democracia com liberdade.
Duas décadas intensas de underground, sendo necessário muitas vezes conviver com um ambiente junkie, carregar instrumentos, dormir e comer de forma irregular e ainda sustentar uma postura política. Você sente a pressão? É questão de possuir uma determinação inabalável ou de saber abstrair as dificuldades do cotidiano underground?
Isto tudo acontece realmente, para se manter vivo na cena por 20 anos trabalhando no underground, com todas as dificuldades, todas as pressões, tem que ter uma determinação inabalável e acima de tudo o amor a uma causa, estamos aí até hoje porque agente gosta, temos esta determinação inabalável e temos a amizade entre a banda, que mantém este equilíbrio, agente defende o nome.
Pressão existe e à medida que os anos vão passando vai aumentando, pois este não é nosso ganha pão, não é nosso meio exclusivo de vida, apesar de termos evoluído muito no underground, ter adotado uma postura profissional, agente trabalha dentro da realidade nossa, do nosso cenário. Então pressão existe, existe pressão da família, da sociedade, pois dependemos de outro trabalho para poder sobreviver, então a pressão é grande, mas temos superado tudo isto e mantido a coisa funcionando, mas não é fácil e à medida que os anos vão passando, que agente vai avançando na idade, vão surgindo outras responsabilidade, vamos sentindo esta pressão, mas uma coisa que acontece com o Ação Direta é que estamos sempre discutindo projetos futuros, sempre traçando metas. Já passamos por situações muito extremas de pressão e isto de uma certa forma fortaleceu o grupo. Todos na banda trabalham em uma profissão paralela.
Um argumento clássico é o de que brasileiro só se preocupa com carnaval e futebol. O público de Hardcore é diferente? Ou seja, em termos gerais, há um pessoal que se quebra em rodas de pogo, adora frases de feito, visual agressivo, mas não tem coragem de participar de manifestações pacíficas organizadas na rua. Haverá época em que não será mais necessário ir ao microfone e pedir para o pessoal não depredar, respeitar os camaradas da roda e não beber até cair? Este tipo de comportamento muda com o local ou com o contexto de determinado show? Na década de 80 era diferente?
Uma coisa é certa, o que era na década de 80 e o que temos hoje mudou muito e mudou positivamente, porque naquela época de gangues, de brigas, depredações, mudou hoje para um cenário bem diferente. Naquela época disputávamos fitas cassete à tapa, a informação não chegava, era a idade da pedra, hoje agente tem todo este lance de informações, está tudo muito mais fácil, para se montar uma banda, para comprar instrumento, para divulgar.
Mas sempre há gente idiota, sempre há gente que depreda, mas são fatos isolados. Agora, há também subgrupos, a galera Straight Edge, a galera Hardcore, a galera do metal, a galera do Old School, e neste pessoal às vezes vemos que falta mais comunicação, mais união, faltam interagir, deveriam haver menos subgrupos e uma união maior, um respeito maior entre os estilos e as tendências. Sempre temos pregado isto, o Ação Direta levanta a bandeira da união, quem se identificar, tudo bem, agente não discrimina grupos.
Vemos, por exemplo, uma discriminação forte com este pessoal do Emo, que é uma molecada que está vivendo a época atual, a época deles. Existe sim uma discriminação, assim como existe alguma discriminação do pessoal do metal com o Hardcore, Punk. Apesar de não ser mais aquela da década de 80, ainda ficou no ar alguma coisa, ou seja, o pessoal não se mistura, a galera do metal fica fechada, salvo algumas exceções, a galera do Hardcore fica fechada e dividida em grupos, os Straight Edge, os Metalcore, então falta quebrar estas barreiras. O Ação Direta vem quebrando barreiras o tempo todo e isto traz alguns resultados positivos para a banda e para um galera que compra esta nossa idéia, por assim dizer, que assimila esta nossa idéia.
Estamos trabalhando sem focar em um grupo ou outro. Mas em gral acho que as coisas mudaram para melhor, porque hoje você pode freqüentar um show com tranqüilidade, a molecada se comporta melhor, a molecada cria o hábito de comprar os materiais dos grupos para dar um incentivo, e com isto gira o cenário independente. É importante que possamos vender um CD, uma camiseta nas turnês, o Ação Direta, hoje, não vive do grupo exclusivamente, mas somos uma banda auto-gestora, agente gera o capital que faz a banda se mover, gera o capital para gravar nossos discos, da venda de merchandising, gera o capital para fazer as turnês, para investir em equipamento, é uma auto gestão nossa isto tudo. É importante porque hoje a produção independente é grande, agente se desvincula totalmente de grandes corporações, mas precisamos girar a coisa também, pois é um investimento que precisa retornar para poder seguirmos.
Quais os melhores momentos de 2008 para o AD?
Eu diria que no final do ano passado, em 2007, a banda completou 20 anos, e agente teve a volta do “Pancho” na guitarra, que tinha ficado fora por 5 anos, ele voltou agora para a banda no final de 2007. O “Massacre Humano” foi gravado com o Gil, que entrou no final de 2003 e ficou até meio de 2007. Estamos agora com o “Pancho” e combinamos de em 2008 não projetar ainda nenhum disco para gravar pois estamos ainda trabalhando a turnê do “Massacre Humano” e fazendo vários show comemorativos aos 20 anos da banda. Então a melhor coisa de 2008 está acontecendo agora, que é nossa agenda do primeiro semestre, tivemos em festivais como o de Minas Gerais, o “Roça´n Roll”, estaremos em breve em Santa Catarina, em Goiânia e temos uma agenda forte para este segundo semestre de 2008, que são os shows comemorativos aos 20 anos.
O “Pancho” já está bem entrosado, com ele é fácil pois é um Ação Direta a muito tempo, desde os primórdios e temos uma conexão musical, de amizade e de idéias muito forte. Agora em 2008 o grupo está muito forte.
Planos para shows no Norte/Nordeste?
Fizemos em 2004 uma mini turnê pelo Nordeste, foi a primeira vez que a banda esteve lá, ficamos muito felizes com a recepção, o público e vimos que a galera gosta do Ação Direta lá, estivemos em Natal, Recife, Surubim e João Pessoa. Já mandamos materiais para alguns festivais no Nordeste, mas ainda não tivemos um retorno, é meio difícil chegar no Norte/Nordeste, somos realmente underground, mas continuamos tentando contatos com produtores que possam viabilizar esta ida do Ação Direta. A princípio, estamos focados nos festivais, pois sabemos que os festivais têm a estrutura para poder arcar as despesas para o deslocamento da banda. Agora em 2008 acho que não vai ser possível, pois a agenda está bem cheia, até o momento não surgiu nada para o Norte/Nordeste, mas continuamos tentando e a idéia é que para 2009 estaremos sempre tentando levar a banda para cidades e estados em que agente ainda não tocou.
Mais sobre o Ação Direta em:
http://www.acaodiretabrasil.com.br/
http://www.fotolog.com/acao_direta
terça-feira, 8 de julho de 2008
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