sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Jayme, dos Delinquentes de Belém: mais de duas décadas de movimento Punk




...........................................................................................................................................Belém, capital do Pará e "porta de entrada da Amazônia" apresenta ao mesmo tempo caos urbano e cultura tradicional. A cidade localiza-se às margens da Baía do Guajará, que é a foz do maior rio do mundo. Nesta entrevista, dada ao CHC em dezembro de 2008, vemos que o movimento Punk, desde seu primórdio, também germinava fora do eixo mais tradicionalista.

Os "Deliquentes" são de 85, que foi uma época fundamental para todo movimento punk brasileiro. Em São Paulo e Brasília tudo estava em efervescência, como era o movimento em Belém nesta época? Como chegavam as informações aqui?

Meu início do movimento punk aqui foi em 85. Eu me aproximei do pequeno núcleo que já existia em Icoarací (distrito de Belém) desde, acho que 82 ou 83, que era um pessoal do “Insolência Pública”, mais um pessoal do “Efeitos Colaterais”. Então este pessoal, não sei como, conseguiu informações sobre o movimento punk, mas tinha um contato certo, tinham um contato da galera que fazia o movimento em São Paulo, na Bahia, na época tudo era por carta. Este pessoal tinha fitas cassete enviadas por carta da Europa, que bandas de lá mandavam. Bandas que nem tinham discos mandavam de lá. Existia um contato certo, eles não tinham uma informação deturpada. Havia também fanzines que a galera mandava do exterior e os que vinham de São Paulo. Na maioria eram xerox mas tinham alguns também de gráfica. Havia o ”Espunk” de Salvador, o “Pesadelo” de São Paulo, o “Lute ou Vegete”. Então chegava todo este material ao pessoal de Icoarací e era informação certa, não era coisa depurtada que a mídia divulgada. Era coisa vinda do próprio movimento punk mesmo. E havia também um fanzine em Icoarací, que era do Régis e do Beto. Isto já havia quando me cheguei junto com este pessoal, querendo saber mais sobre este movimento que havia iniciado em Icoarací.

A época era também de auto-afirmação do movimento Skinhead no Brasil, como era a relação entre punks, carecas e bangers em Belém?

O primeiro foco do movimento Skinhead aqui saiu realmente do Punk de Belém, com um pessoal que tinha algumas idéias neste sentido, mas isto já para 89, algo assim. As primeiras pessoas neste sentido, vamos dizer, eram dóceis demais para o que entendemos do conceito de Skinhead, mas os que foram recrutados a partir de então já vieram com esta estória da violência. Mas em pouco tempo estas pessoas viram que a coisa não era como fantasiavam, muitos pularam fora. Hoje em dia uma destas pessoas é um escritor anarquista, ou seja, não tinha muito a ver, talvez na época eles se identificaram mais com o visual mesmo.
Houve também uma outra galera dos carecas após isto. Nós, dos Punks, nunca chegamos a ter um confronto direto como eles, o confronto deles era mais com Headbangers. No entanto nós não andávamos juntos, era separado, mas não tínhamos atrito. Belém era uma cidade pequena, não tinha como não se encontrar. Quando passávamos juntos, agente se cumprimentava, mas cada um ia para seu canto. A treta deles era mais com metal mesmo. Nós, os Punks, éramos bem pacíficos, não tinha esta estória de sair para brigar.

O nome "Delinquentes" é forte e facilmente associável com criminalidade. Na década de 80 e começo nos anos 90 ainda havia uma forte presença da cultura de repressão do estado. A banda sofreu alguma retaliação ou passou por momentos difíceis nesta época?

Não chegou a haver retaliação da polícia na época. O que houve, e ainda hoje há é retaliação no sentido de não colocar a banda em determinados festivais. Por exemplo, num grande festival há pouco tempo, o dono chegou e disse que não poderia colocar uma banda como os Delinquentes no festival, por uma associação direta com o nome da banda, algo que não poderia entrar no cartaz do festival.
No início da banda, ainda no resquício da ditadura, não chegou a haver treta direta com a polícia, acredito devido ao fato de que nossos eventos na época eram muito pouco divulgados. Agente mesmo ia para a Praça do Operário, Praça da República, agente mesmo arrumava um palco, alugava um som, agente que digo era o movimento da época. Juntava quatro ou cinco bandas, dividia as despesas. Acho que na época era até um diferencial do que ocorre hoje. Tinha várias bandas fazendo acontecer mesmo, se exercitando, e como era de pequena proporção acho que a polícia nem ficava sabendo (risos). Nunca rolou uma grande batida da polícia, indo gente para cadeia, acho que rolava mais com relação ao visual. O que rolava era tomarem o coturno, a polícia chegava a tirar, mas creio que comparado ao que agente escutava do que ocorria em São Paulo, era bem leve.

Como é a relação da banda com outros grupos do Norte/Nordeste?Você acha que uma integração maior pode ser uma opção para o fortalecimento da cena Punk/HC destas regiões?

Primeiro, deixar claro que o Delinquentes não toca somente com bandas Punk, tocamos com bandas de metal, de rock, de todos estilos. Temos uma certa afinidade com bandas do Nordeste, já fomos várias vezes. Fortaleza, Maranhão já fomos quatro vezes, já fizemos uma turnê pelo Nordeste em que passamos um mês, fomos em seis ou sete estados. Isto foi em 2000. Tem uma cena legal lá e acredito que nossos contatos sejam mais fortes com o Nordeste do que com o Norte, o que é uma pena. Não é que agente não procure, mas realmente nosso contato com o Norte é mais fraco. Já fomos tocar em Macapá. Pela distância, muitas vezes é mais fácil ir para São Luis do que para Manaus, por exemplo. A passagem Belém-Manaus é mais cara do que Belém-São Paulo, é um absurdo mas é o que acontece.
Então, sempre a principal dificuldade é a distância. Muita gente, inclusive jornalistas acha que isto é uma desculpa nossa. Desculpa o caralho!, esta distância daqui para outras cidades é um pesadelo, é um fardo.

O estado do Pará é um tema fértil pela má distribuição de terras, violência no campo, caos urbano, violação de direitos humanos, entre outros.
Fazer música de protesto no Pará é mais fácil ou mais difícil frente à tantos estilos característicos regionais que atraem um público muito maior, com o tecnobrega, calypso, etc.?


Existe uma peculiaridade com as bandas daqui que fazem um som mais ácido, mais crítico, de protesto, porquê há bandas que preferem falar de outras coisas. As bandas mais de contestação tendem a falar mais da realidade. Há bandas no Nordeste que falam da miséria e da seca, que são coisas muito fortes lá. Então para gente é fácil falar das coisas daqui, pois é coisa que agente vê, vemos nos jornais, os encontros indígenas que ouvimos, então agente acaba tendo esta cara própria. Mas os Delinqüentes podem falar do índio daqui como pode falar, por exemplo, do acidente nuclear de Chernobyl. Ou seja, não ficamos presos à temática Amazônica, regionalista.
Há uma galera com mais visão que às vezes pergunta como é a vida aqui em Belém, na Amazônia. Mas há gente que tem a mentalidade que aqui tem jacaré pela rua, isto é um coisa velha que ainda rola muito, o desconhecimento. Acho até natural, o Brasil é muito grande, eu mesmo me confundo com estados do Sul, às vezes chamamos de sul, mas é sudeste, até isto. Mas há uma galera lá que desconhece muito daqui. Tudo bem que aqui cai manga na cabeça mesmo, que chove todo dia, mas porra, não tem jacaré andando na rua.

Qual seu recado para quem julga que Belém não tem vocação para o rock?

Belém tem a cara de tudo. Todos tipos de vazões artístico culturais existem aqui. Há algumas tendências que estão mais na mídia em determinada época. A própria cena do rock aqui é uma montanha russa. Eu acompanhei a cena de Belém desde os anos 80 e houve realmente vários altos e baixos. Várias vezes houve épocas mais fortes. Vai e volta. Talvez hoje agente esteja em um período de entressafra, porém mais devidos à outros fatores. Quando se fala em melhor momento não é em relação à qualidade das bandas, não é isto, as bandas estão muito boas. Por exemplo, estamos com um problema muito grande quanto a falta de espaço para tocar, tem banda que até acaba por isto, mas a maioria é insistente e continua. A prova da qualidade das bandas é o pessoal indo para fora, “A Euterpia”, “Madame Saatan”, vai ter um festival em Macapá com três ou quatro bandas locais lá. As bandas de metal todas estão saindo também, ou seja, Belém tem um potencial muito grande. Agente tem uns períodos em que o terreno fica menos fértil, como a questão de menos espaço para tocar, a mídia apostando menos no rock, é isto que está rolando.

Quais os melhores momentos que você destacaria em 23 anos à frente dos "Delinquentes"?

Para mim, as melhores coisas, também para a banda, foi a turnê no Nordeste em 2000, que foi um mês tocando, conhecendo pessoas e lugares. Tocamos em São Luís, Fortaleza, João Pessoa, Maceió, tudo direto, aí depois Salvador, Aracaju. Foi o lançamento do “Pequenos Delitos” (primeiro demo da banda). Citaria também o terceiro “Rock 24 horas” (evento aberto ao público em geral) que ocorreu em 1993, na Praça Waldemar Henrique. Infelizmente rolou uma porrada que terminou num caos o evento, mas fomos a segunda banda a tocar, depois do “Retaliatory”. Na hora do Delinquentes eu vi uma praça inteira pogando, foi uma visão única, inesquecível. A treta toda rolou lá pela oitava, décima banda, infelizmente. Citaria shows antigos também e novos como o Memorial do Rock, no Memorial dos Povos há uns dois ou três anos, com a formação nova, atual, da banda. Foi um festival organizado pela Funtelpa (Rádio e TV Cultura do Pará). Houve viagens antigas bem marcantes também, mais pelo convívio com os punks, dormindo em rodoviária, esta época marcou pela história de convivência com o pessoal.

Quais os planos para os "Delinquentes" em 2009?

Primeiro lançar o CD pois houve um pequeno atraso. Será um CD oficial. A idéia era lançar CD e DVD, houve um engate mas ainda estamos com o projeto para lançar. Existe a “Lei Tó Teixeira”, que é uma lei de incentivo. Acontece que agente consegue a carta de patrocínio, mas na hora de chegar nas empresas privadas encontramos portas fechadas, as empresas querem apoiar geralmente MPB ou outros estilos, a maioria das empresas não quer o nome vinculado, então temos que encontrar alguma empresa que seja de conhecidos ou amigos, para poder ter este aval.
Primeiro queremos lançar o CD que já está gravado há mais de um ano, está mixado também, só falta prensar, tem 17 músicas, uns 35-40 minutos. Já tem nome, nele há até um cover de música regional, uma música chamada “Pescador” do “Mestre Lucindo” de Carimbó. O CD sairá no início de 2009, esperamos, e o DVD já mais para o decorrer do ano.