segunda-feira, 12 de maio de 2014

Terror revolucionário...muito mais do que um nome polêmico.

Terror! Bombas! Terrorismo!...Chamem a CIA, o Mossad, chamem o Bolsonaro!...nada disto. Mas afinal, o que está por detrás da banda Terror Revolucionário, do Distrito Federal? Algo que a sociedade deva temer? Por detrás não há nada que se esconda, algo que se pode ver adiante nesta entrevista. Pessoas comuns, cidadãos, pais de família, aos quais a única coisa a se temer é ser contagiado por sua atitude.
A banda é de 1999. Já se falava muito em terrorismo, mas foi a partir dos atentados nos EUA em 2001 que o termo ficou institucionalizado. No Brasil, neste momento fala-se em tipificar o crime de terrorismo. Terror Revolucionário é quase um sinônimo da guilhotina francesa. Vocês citam Karl Marx como inspiração pelo nome. Muitos posteriormente se inspiraram pela guilhotina. Também Hitler, Stalin e os generais da ditadura militar latino americana pregavam a eliminação de opositores. No meio underground já estamos habituados às posturas extremas, chocar o sistema por que tudo está uma merda mesmo, então batemos de frente. Para extravasar e aliviar a indignação. Para botar esta bagaça para fora. Jayme, dos Delinquentes (banda HC do Pará) disse que o nome da banda pode eventualmente trazer alguma dificuldade para agendamento de shows. Nestes 15 anos de Terror Revolucionário suspeitam que alguém retaliou ou “desconvidou” a banda por acharem que vocês iriam falar para a molecada jogar bomba no Conic (área central de Brasília)?

Fellipe CDC (vocal):Eu acho que ninguém deixou de convidar a banda por conta do nome, mesmo porque a banda é em termos de som muito feia, então o cara descartaria a banda pelo som, não pelo nome. Mesmo onde eu trabalho a galera pergunta o nome da banda eu falo: Terror Revolucionário. Aí o pessoal acha forte e eu começo a rir.
Thiago (guitarra): Quando a gente comenta no trampo o nome da banda acho que a primeira impressão é um choque. O pessoal fala “não tem um nome menos agressivo?”. Mas acho que como são pessoas que não estão nesse meio mais de bandas estranham mesmo, mas depois acostumam.

Fellipe: Acho que a gente faz parte de um meio muito fechado, por que gostamos, porque a grande maioria das pessoas não gosta do som que a gente faz, mas também não estamos interessados em mudar as letras, o nome, para agradar um número maior de pessoas. A gente está feliz e satisfeito desse jeito, tocando com nossos amigos, com nosso nome intacto e mais longe do mainstream, porque a gente sabe que rola muito merda no mainstream. Então preferimos ficarmos nós quatro amigos, tocando com nossos amigos. Sobre uma possível “revolução” considerando os últimos acontecimentos e as manifestações de rua (protestos, julgamento do mensalão, etc.) acho que uma grande parte já foi esquecido, já foi cooptado pela mídia e pelos próprios políticos para quem ela trabalha e quem ela coloca para dentro do poder. Se você for analisar hoje em Brasília a gente tem um governo que se diz esquerda e um governo federal que se diz esquerda. Hoje você vê que os partidos que são de direita estão protestando contra os partidos que eram de esquerda. Há infiltrações nos protestos para desestabilizar o governo. Eu tinha um professor tempos atrás que era do partido do Maluf. Quando o Maluf e o Lula não eram amigos como hoje são, ele fala que cansou de ir para a rua, inúmeras vezes, de madrugada, para pichar contra o PT, tipo: “Lula é a favor do aborto, o PT é a favor da união homossexual”. Ou seja, nesse jogo de poder acontece este jogo sujo e para quem não acompanha a política de perto vai achar que tudo aquilo que está escrito é a pura verdade. Acho interessante as pessoas lerem o máximo possível, não só um determinado segmento. A gente tem que saber o que fala a esquerda o que fala a direita e o que fala o centro para ele poder se posicionar e descobrir alguns podres, porque todos lados tem seus podres, e são muitos.



Jeferson (bateria): A apologia à violência, pelo nome da banda, para quem não conhece pode achar que é uma verdade, que a banda participa disto, mas achamos que atos terroristas não são bem vindos, porque acabam atingindo pessoas inocentes. Quem conhece a cena underground e quem conhece a banda em si sabe que a banda prega a pacificação, o diálogo sempre, a não violência, porque a música por si só já é violenta. A música é feita para a gente desabafar, para botar o bicho pra fora, como desabafo, a violência que a gente usa é só a música. A música é que é violenta. A maioria do pessoal se liga para ir atrás das letras das músicas. O pessoal que escuta, que curte Hardcore costuma ler o que há nas letras e procura entender o que a banda está querendo passar. Quanto à tesourarem a banda pelo nome, acredito que alguém já tenha tesourado mais pelo som da banda, não pelo nome. Se aconteceu não ficamos sabendo de tesourarem pelo nome. Eu particularmente acredito que a banda já tenha sofrido algum aparte de show mais por conta do som, por ser muito barulhento, ou muito sujo, ou porque ninguém entende nada, coisas do tipo.

Adriana (baixo,vocal): Quando a gente fala de terrorismo, de revolucionário, a questão é muito ampla. A gente pode revolucionar várias coisas, é mudar, é a mudança em várias coisas, para esquerda ou para direita. A questão do terror não é necessariamente a questão da violência, a gente pode colocar isto em palavras, em atitudes em si. Mas eu acho que algumas coisas devem ser mudadas radicalmente da forma como estão hoje. Nunca houve, pelo menos da minha parte alguma discriminação, mas confesso que as pessoas se assustam, as pessoas que estão fora do meio do rock. Estas pessoas podem pensar a questão do terrorismo, aquela coisa mais radical, sem ter muito diálogo, mas eu acho que é mais aterrorizar no sentido da mudança. A grande maioria dos amigos é da cena mesmo. No trabalho inicialmente eu não falava muito que tocava em banda, mas a partir do momento que o pessoal me conhece eu comecei a me abrir mais, mas não sou muito de misturar a questão pessoal com a questão profissional.

No show de 15 anos você, Thiago, disse que estava curtindo o clima de festa. Houve coisas bem legais como divisão do palco com convidados, rango vegano, poesia panfletaria, crianças se divertindo por lá e muito mais. Ao mesmo tempo, disse que na véspera rolou umas tretas no show gratuito de outras bandas no Conic. Há uma conversa entre a banda e o público da cena underground no sentido de que os shows sejam festas, verdadeiras celebrações de que estamos vivos?

Thiago: Este show, no Conic, que teve um dia antes da festa de 15 anos de Terror foi um show gratuito com um perfil totalmente diferente da galera que curte o Terror, era um pessoal mais street punk, oi e alguns caras querendo arrumar confusão por qualquer coisa, querendo quebrar vidro de loja e brigando entre eles mesmos. Não sei se chega a ser um movimento skinhead, mas parece que é algo que está crescendo. Então esta galera é mais difícil de curtir o som da gente, raramente este pessoal vem falar com a gente. Mas Brasília tem espaço para vários tipos de público, tem uma cena grande. Teve um outro show também por lá mais da galera do metal que de conhecido só tinha eu, o Fellipe e a galera do Maltrapilhos, totalmente diferente a galera do Terror Fest.

Fellipe: Já rolaram vários shows no Barbarella e nunca teve nenhum tipo de problema de briga, de tetra, isto é muito raro de acontecer. Alguns shows específicos tem uma possibilidade maior de dar confusão por causa de atritos ideológicos, porque acontece um momento em que uma pessoa não respeita a outra. Acho que mesmo não só dentro da cena punk há a questão do respeito, do ser humano, em mostrar o seu ponto de vista e não querer empurrar aquilo que se acha certo. E até mesmo o lance do respeito do ser humano, como animal, frente aos animais irracionais. No meu ponto de vista este é o grande mal da humanidade, mas acho que tem como melhorar.

Você falou, Fellipe, em outras entrevistas sobre o aspecto ideológico, que procura chamar para o Terror Fest bandas que não tenham vínculos com conteúdos discriminatórios. Organizou também um Headbanger´s Attack com bandas femininas. Se você não se metesse com ideologia teria mais facilidade em montar os shows? Teria escutado menos merda? Mesmo assim vale a pena?

Iria ter menos trabalho, porque para fazer este tipo de evento você tem que primeiro peneirar as bandas, para saber quem realmente acredita no que você acredita, quem realmente não desrespeita outra classe populacional. E com certeza haveria muito acesso a várias bandas, para chegar em um patrocinador e falar que determinada banda teria mais visibilidade, mas tem que ver se uma banda não agride ideologicamente outras pessoas. Dentro do próprio Headbangers Attack que é um festival mais voltado ao metal eu sempre insiro bandas de Hardcore, Crossover, até porque eu gosto de Hardcore. Mas acho que não teve bandas que se sentiram excluídas, mesmo porque é um festival de pequeno porte, então acho que tem bandas que nem fazem questão, se não foram chamadas não ligam. Uma das coisas que sempre falo, inclusive entre nós da banda Terror Revolucionário é sempre chamar a galera que não faz merda e também os caras que sempre colam nos nossos shows. Não adianta também a gente chamar um pessoal que sabemos que nunca vai aparecer nos nossos shows. Gosto também de misturar, de chamar um pessoal de regiões diferentes, para não ficar segmentando, para ter uma diversidade, justamente para ver se as pessoas de diferentes cidades se encontram e fazem alguma coisa juntas. A gente entende a ideia de coletividade e de cooperativismo, quando mandamos e-mails para as bandas falamos para o pessoal chamar os amigos, para chegar cedo no local para prestigiar também as outras bandas. Sabe, se você vai tocar, não toca e vai embora, fica para prestigiar as outras bandas. Sempre falo isto.

Você disse, Adriana, que tem ânimo para enfrentar a cena e para buscar um ambiente mais igualitário, com mais mulheres presentes, que é isto que lhe motiva. Na festa de 15 anos houve divisão de palco com várias outras mulheres. Um momento de afirmação bem legal. Em alguma ocasião, pelas andanças, você percebeu que há mais machismo em determinadas regiões? Em algum lugar é diferente?

Eu me considero feminista. Não posso falar de outras cenas, em outros lugares, pois não tenho um conhecimento profundo, não tenho como comparar a cena do DF com outros lugares. Tem muita banda com mulheres aqui, tem já um histórico. A questão de atitudes machistas é algo bastante amplo, a gente vê sim, mas é algo da sociedade em geral, a mulher como objeto, a mulher em segundo plano. Já aconteceu de desconsiderar bandas. Curtir o som e então passar a conhecer as atitudes dos integrantes, coisas absurdas, e hoje não curto mais. O som pode ser bom, mas tem que ter a atitude também.

Em fevereiro rolou o 3º Metal Solidário, no América Rock Club, uma iniciativa louvável da Eliane de Castro. O local tem uma estrutura excelente. Mesmo com o consumo do bar, muito provavelmente não pagaram-se os custos, considerando que a entrada foi a doação de livros e cadernos. Ela tira do próprio bolso. Também nós, inúmeras vezes fazemos eventos que levamos “prejuízo” e pagamos a conta. Quem entra numas destas faz por que bota o coração. Em outros cantos do Brasil faz-se eventos muitíssimos precários, com orçamentos medíocres, mas mesmo assim faz-se na raça. Brasília é exemplo mundial de desigualdade social, abrigamos agora o troféu de maior favela da América Latina (Sol Nascente em Ceilândia). Afinal, é mais fácil ou mais difícil viver da cena underground no Distrito Federal?

Fellipe: Diria que viver da cena underground é quase impossível. Tem muita gente que vem com a ideia de ganhar grana em Brasília e no primeiro mês já está voltando para casa. Porque não é só o custo de vida aqui, o cara tem que fazer uma série de coisas, tem que ter um empresário, tem que fazer um som que agrade a um número de pessoas. Agora quanto a competição, não sei, eu estou nesta de música há tanto tempo que nunca senti competir com ninguém. Faço porque gosto, gosto de fazer um som, de organizar eventos, mesmo tomando prejuízo direto, mas a gente vai teimando. É o negócio de colocar o coração na frente da razão. Se você colocar a razão na frente, fudeu, você para de fazer show, acaba com as bandas, fica em casa, indo da casa para o trabalho ou vai para uma igreja e cai no desespero. Eu acho que temos que fazer o que se gosta para sentir a liberdade da sua vida. Para um maior profissionalismo tem sempre aquele lance de se submeter a um empresário ir num Faustão da vida. Eu não iria nem fudendo, tocar playback, nunca. Então para quem quer ter o tal do sucesso tem que estar submisso a muitas coisas, então tem bandas que não querem alcançar o sucesso, querem simplesmente tocar, acho que é o caso do Terror, de outras bandas de Brasília, de São Paulo, de qualquer lugar do mundo acho que tem bandas que só querem tocar, querem se divertir.

Animados para o Mister Crack? Falem um pouco sobre o novo trabalho.

Thiago: O disco já está pronto a um ano ou mais. Já está gravado. São 21 minutos. Vamos finalizar hoje (abril 2014) a parte artística, da capa e tal.

Fellipe: A temática é o crack e a capa foi feita pelo Murilo de São Paulo com o lance do crack.

Thiago: Tem o meu irmão, que não é da cena underground, tem cerca de 30 anos mas está neste mundo de drogas há já quase 10 anos. Com o crack há uns 5, 6 anos. Aí fica nesta vida de vai e volta da clínica. Da última vez ficou 6 meses em uma clínica, está começando a voltar para casa e agora está trabalhando lá como voluntário, ajudando, fez um curso em Campinas. E a vida dele está toda atrasada por causa de drogas, que não deixa ele seguir em frente.



Fellipe: Tanto em Brasília, como São Paulo, Goiânia, alguns amigos nossos tiveram envolvimento muito forte com Crack. Cara, infelizmente não conheço ninguém que tenha saído limpo, até queria conhecer, porque a dependência é muito rápida e muito intensa. Então o cara tem que fazer de tudo para não entrar nesta, não experimentar, porque se entrar o risco dele continuar é muito grande. Sobre o som da banda no novo CD está metaleiro pra caralho, com o Barbosa.

Thiago (Barbosa):O som acho que está um pouco mais pesado, tem algumas influências de grind, de crossover, de grindcore. Tem música só com vocal feminino, da Adriana, com letra dela mesma. Acho que tá um som bem diversificado. Previsão de lançamento de mais uns três meses.

Adriana: Neste último disco as músicas já estavam prontas, só fiz a letra. Dentro de outras bandas que tive, fazia música, letra, isto era normal.

Fellipe: Tem quatro Distros (distribuidoras independentes) que vão entrar com a gente neste lançamento. Tem o Rock Mutante, de Campo Grande, Mato Grosso e outras, que foram as que acreditaram na gente. Vai ficar umas 200 cópias para cada. Já fechamos com as quatro. Tem uns vídeos disponíveis também no Youtube.

Thiago: A idéia é ir vendendo os CDzinhos, a 10, 15 contos e tem também as camisetas.

Fellipe: Vai ter uma tela nova de camiseta, que é a capa do Mister Crack e também outra que é o rótulo do CD, feita pelo Daniel que tocou no Flashover e agora tá tocando no Bruto.

Jeferson: Eu tenho informação de um sujeito que é conhecido, quem lembrar vai associar a pessoa. É um cara bem conhecido aqui do DF e uma vez foram a São Paulo para um show e até onde saiba tem sim certo envolvimento com o crack. E já faz um tempo que não ouço falar dele, não sei por onde anda, ninguém falou mais dele. E pessoas muito próximas que já usaram, que usam de vez em quando. Até onde eu sei há uns caras que usam e parecem que não se viciaram. Agora, já perdi amigos por conta das drogas, por conta de outras drogas, por envolvimento do tráfico, que é uma coisa que está assolando a sociedade. Nos EUA legalizaram parcialmente a maconha, arrecadaram milhões de dólares com isto. A legalização da maconha é um questionamento que todo mundo faz, se poderia dar certo ou não, para acabar com o tráfico e para uma riqueza dos governos. O governo qualquer ação que faça não é em benefício da população, todo mundo sabe disto. Eles querem sai ganhando de alguma forma. A gente fez esta temática Mr.Crack porque é uma coisa assustadora, é uma coisa que tá tomando não só o Brasil, mas também o mundo e acho muito perigoso, se as pessoas não se cuidarem. Se falar, vou usar só uma vez que não dá nada. Tem gente que não tem um auto controle, que nem a bebida, a bebida é uma droga legitimada, só que tem vários acidentes nas estradas e se vê que o cara bateu, matou, atropelou porque bebeu.

A gravação foi feita, no dia, com opções de cinco caixas para a bateria, duas de madeira e três de metal. Em reunião no estúdio escolhemos uma caixa e demorou muito para escolher ela, a timbragem dela. A gente gravou os sons em dois dias, no segundo dia que fomos escutar o que tinha gravado, o técnico de som percebeu algo diferente do segundo som em diante, no som da caixa de metal. Tinha algo errado na hora de ouvir a gravação crua. Ouvimos, ouvimos e tinha algo na bateria, fomos procurar e a pele de resposta da caixa estava rasgada. Gravei 14 músicas com a pele de resposta rasgada. Tivemos que refazer as músicas porque ia dar uma disparidade muito grande se continuasse assim, da décima quinta música até o final. Mas o resultado final do disco ficou bacana, está prestes a sair, já no forno, daqui a pouco está aí, mais tardar em junho e olhe lá. Vamos querer um show de lançamento, com certeza, mas não sabemos aonde, como e quando, mas vamos fazer. Umas cópias para vender nos shows, adesivo, camiseta. A gente queria muito lançar em vinil, mas as condições aqui no Brasil são caras e a banda não tinha grana suficiente, mas pretendemos sim lançar alguma coisa em vinil. Tem uns outros materiais da banda que estão prestes a sair em vinil. Como a gente já queria lançar logo o novo trabalho, o CD foi o que veio a calhar.



Mais sobre a banda Terror Revolucionário veja no You Tube, nas redes sociais em geral e também em:

Blog do Jayme, vocalistas dos Deliquentes:

http://caldodecranio.blogspot.com.br/2014/02/entrevista-terror-revolucionario-df.html

Rádio Cult 22:

http://www.cult22.com/blog/#sthash.siVhIuxy.dpbs

Zine oficial do DF e entorno:

http://www.zineoficial.com.br

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