sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Entrevista com AÇÃO DIRETA


















Desde 1987 na ativa, Gepeto, o vocalista e um dos fundadores da banda de Hardcore AÇÃO DIRETA, conversou com o Consciência Hardcore. O AÇÃO DIRETA, banda gerada em uma região proletária de São Paulo, o ABC paulista, é atualmente uma das bandas mais importantes da cena Hardcore mundial. Veja a íntegra da entrevista gravada em 01 de agosto de 2008:

Nestes 20 anos com o Ação Direta, no Brasil e em viagens pelo exterior, houve em algum momento retaliação ou discriminação devido à postura politizada da banda, em especial com grupos de ultra-direita?

Fizemos quatro turnês até hoje, foram em 97, 99, 2001 e 2004. Em todas estas turnês, nosso contato principal foi com a cena alternativa européia. Dentro desta cena alternativa não existe este tipo de preconceito, existe uma receptividade e uma abertura grande à cultura sul-americana. Nós fomos convidados, já existiam algumas pessoas que ajudaram a organizar, correspondentes antigos que divulgavam a banda.
Ou seja, dentro deste cenário você não encontra este tipo de problema, são ativistas que são justamente contra este tipo de preconceito, este tipo de discriminação.
Não chegamos nem a encontrar com o pessoal de ultra-direita. Sabemos que existe um foco forte desta facção na Europa, mas não tivemos este tipo de contato nos circuitos alternativos que freqüentamos.
No entanto tivemos um episódio de descriminação ao tentar entrar na Inglaterra na turnê de 2004, quando fomos barrados pela imigração e aí sim houve um episódio de puro preconceito, pois fomos barrados, impedidos de entrar no país e deportados. Mas, claro que existe sim um preconceito e está embutido ali na sociedade.
Sabemos que existem sim manifestações de ultra-direita contrárias à cultura mais alternativa só que não são tão freqüentes. Quando acontecem são eventos grandes, organizados e acabam em confusão. A resistência a este pessoal também é grande e é por isto que vemos que tomam proporções maiores, de quebra-quebra geral, porque as manifestações deles são grandes, mas diria que a resistência é maior ainda, por isto ocorrem confrontos generalizados com polícia, com grupos de outras facções, etc. Vimos cartazes e ouvimos estórias de manifestações realmente grandes neste sentido, mas não são muito freqüentes.

Como você vê a percepção dos estrangeiros frente à Amazônia brasileira? De que forma lhe afetou o fato de escutar relatos sobre a Amazônia no exterior?

Acho interessante este assunto no sentido de que em nossas viagens à Europa quase não ouvimos sobre a Amazônia. No geral algumas pessoas sabem que no Brasil há verde, praias, uma natureza bacana, mas vimos que o assunto Amazônia está vindo à tona após a discussão do aquecimento global. Hoje, diria até que virou uma moda discutir a Amazônia e vemos até que há um monte de picaretagem envolvendo os gringos, comprando, vendendo a Amazônia, fazendo patentes de produtos, marcas. Agora que as autoridades brasileiras estão tratando do assunto, ou que está sendo mais divulgado, vemos realmente como um absurdo, pois eles também compram a madeira nossa lá. Existe um grupo de burgueses europeus que compram patentes, ouro, madeira, couro dos animais. Então vejo que há muita hipocrisia nesta discussão, ela está surgindo meio tardia, mas é válida porque está alertando a população brasileira e global também para este assunto, porque realmente a Amazônia virou um foco agora. Eu vejo este assunto como muito delicado, pois é preciso parar com esta onda de desmatamento, situações com animais e passar a cuidar da Amazônia, pois é um patrimônio crucial e valioso que precisamos cuidar, pois é nosso, é sul-americano.

A ação direta é uma forma de atuação independente do estado concebida pelos ideais anarquistas. No entanto, muitos confundem anarquismo com ausência de política. Em um mundo cada vez mais polarizado entre esquerda e direita, cabe atualmente o voto nulo?

Quanto ao anarquismo sempre tivemos interesse na filosofia do anarquismo, só que vivemos em um mundo extremamente capitalista então a realidade é o capitalismo, não é o anarquismo. Acho que você pode extrair várias coisas bacanas da filosofia do anarquismo e reproduzi-las no seu dia a dia. Como a coisa da coletividade, da igualdade, do respeito, de ações conjuntas, tudo isto pode ser introduzido no seu dia a dia, de forma simples para você estar melhorando e cada um fazendo a sua parte.
Mas não podemos ficar com a utopia de um mundo sem governo. Eu acho uma utopia, pois estamos em 2008, com tecnologia, globalização, não há como ficar viajando nesta utopia. Acho que extrair coisas do anarquismo para aplicar no dia a dia é um fato e é isto que fazemos, mas sabemos da realidade que é o capitalismo.
Quanto à política, você ter o poder do voto na mão é uma responsabilidade grande. Você pode dizer que quer anular o voto e dizer que está aparte de tudo isto que está aí, que não está nem aí com nada, como uma forma de manifestação. Mas acho que acima de tudo, você deve votar e cobrar daquela pessoa. Mas acho que o povo ainda tem muita dificuldade, não é educado para cobrar, as pessoas deveriam se envolver com isto na medida que se envolvem com partidas de futebol. Deveríamos estar cobrando este pessoal e não simplesmente anulando o voto, mas isto é uma decisão pessoal de cada um. Acho que o voto nulo como um demonstrativo de insatisfação é válido.

O AD sempre alertou para o ciclo vicioso das atitudes negativas e da violência gratuita. Ao mesmo tempo em que a violência cotidiana parece inconcebível com a vida em sociedade, a violência institucional é uma ferramenta extrema arriscada que eventualmente pode gerar resultados, como no caso recente dos estudantes da Universidade de Brasília que meteram o pé na porta, invadiram a reitoria e exigiram a saída de um reitor corrupto. Você pegaria em armas para defender a causa que tem acreditado por toda sua vida?

Não. Sou contra armas, não gosto de armas, detesto. Acho que isto gera uma falsa sensação de poder, gera outros tipos de abuso, de violência, porque as pessoas não estão preparadas para esta consciência, o Brasil, a América do Sul ainda não tem esta consciência, tanto é que somos subdivididos em ditadores, milícias e isto tudo geraria mais violência. Sou totalmente contra armas, não pegaria em armas, não morreria por isto. Agora, existe um outro tipo de situação, a situação extrema, uma defesa da vida, da sua família, uma guerra, por exemplo, neste caso não saberia dizer se sim ou se não, pois em uma situação extrema você vai reagir. Toda ação vai ter uma reação. Não detenho armas, não curto armas e se puder fazer uma campanha contra eu farei. Achei válida a campanha do desarmamento, mas infelizmente não foi dada uma seqüência, acho que a campanha deveria ser novamente trabalhada e deveria ser constante. Sou favorável ao desarmamento.

No socialismo há casos de má interpretação e ineficácia como em qualquer regime político. O capitalismo desenfreado, por vez, está por trás de tragédias como as guerras mundiais e as matanças de civis no Oriente Médio. Herbert José de Souza, o “Betinho” disse certa vez: “Democracia serve para todos ou não serve para nada”. Há democracia no Brasil?

Não, de maneira alguma. Aqui não podemos manifestar nossas opiniões, não existe uma democracia porque a lei não é igual para todos. Estamos longe de uma democracia, a gente avançou se formos considerar a história do Brasil, conquistamos alguns pontos mas ainda estamos longe de uma democracia com liberdade.

Duas décadas intensas de underground, sendo necessário muitas vezes conviver com um ambiente junkie, carregar instrumentos, dormir e comer de forma irregular e ainda sustentar uma postura política. Você sente a pressão? É questão de possuir uma determinação inabalável ou de saber abstrair as dificuldades do cotidiano underground?

Isto tudo acontece realmente, para se manter vivo na cena por 20 anos trabalhando no underground, com todas as dificuldades, todas as pressões, tem que ter uma determinação inabalável e acima de tudo o amor a uma causa, estamos aí até hoje porque agente gosta, temos esta determinação inabalável e temos a amizade entre a banda, que mantém este equilíbrio, agente defende o nome.
Pressão existe e à medida que os anos vão passando vai aumentando, pois este não é nosso ganha pão, não é nosso meio exclusivo de vida, apesar de termos evoluído muito no underground, ter adotado uma postura profissional, agente trabalha dentro da realidade nossa, do nosso cenário. Então pressão existe, existe pressão da família, da sociedade, pois dependemos de outro trabalho para poder sobreviver, então a pressão é grande, mas temos superado tudo isto e mantido a coisa funcionando, mas não é fácil e à medida que os anos vão passando, que agente vai avançando na idade, vão surgindo outras responsabilidade, vamos sentindo esta pressão, mas uma coisa que acontece com o Ação Direta é que estamos sempre discutindo projetos futuros, sempre traçando metas. Já passamos por situações muito extremas de pressão e isto de uma certa forma fortaleceu o grupo. Todos na banda trabalham em uma profissão paralela.

Um argumento clássico é o de que brasileiro só se preocupa com carnaval e futebol. O público de Hardcore é diferente? Ou seja, em termos gerais, há um pessoal que se quebra em rodas de pogo, adora frases de feito, visual agressivo, mas não tem coragem de participar de manifestações pacíficas organizadas na rua. Haverá época em que não será mais necessário ir ao microfone e pedir para o pessoal não depredar, respeitar os camaradas da roda e não beber até cair? Este tipo de comportamento muda com o local ou com o contexto de determinado show? Na década de 80 era diferente?

Uma coisa é certa, o que era na década de 80 e o que temos hoje mudou muito e mudou positivamente, porque naquela época de gangues, de brigas, depredações, mudou hoje para um cenário bem diferente. Naquela época disputávamos fitas cassete à tapa, a informação não chegava, era a idade da pedra, hoje agente tem todo este lance de informações, está tudo muito mais fácil, para se montar uma banda, para comprar instrumento, para divulgar.
Mas sempre há gente idiota, sempre há gente que depreda, mas são fatos isolados. Agora, há também subgrupos, a galera Straight Edge, a galera Hardcore, a galera do metal, a galera do Old School, e neste pessoal às vezes vemos que falta mais comunicação, mais união, faltam interagir, deveriam haver menos subgrupos e uma união maior, um respeito maior entre os estilos e as tendências. Sempre temos pregado isto, o Ação Direta levanta a bandeira da união, quem se identificar, tudo bem, agente não discrimina grupos.
Vemos, por exemplo, uma discriminação forte com este pessoal do Emo, que é uma molecada que está vivendo a época atual, a época deles. Existe sim uma discriminação, assim como existe alguma discriminação do pessoal do metal com o Hardcore, Punk. Apesar de não ser mais aquela da década de 80, ainda ficou no ar alguma coisa, ou seja, o pessoal não se mistura, a galera do metal fica fechada, salvo algumas exceções, a galera do Hardcore fica fechada e dividida em grupos, os Straight Edge, os Metalcore, então falta quebrar estas barreiras. O Ação Direta vem quebrando barreiras o tempo todo e isto traz alguns resultados positivos para a banda e para um galera que compra esta nossa idéia, por assim dizer, que assimila esta nossa idéia.
Estamos trabalhando sem focar em um grupo ou outro. Mas em gral acho que as coisas mudaram para melhor, porque hoje você pode freqüentar um show com tranqüilidade, a molecada se comporta melhor, a molecada cria o hábito de comprar os materiais dos grupos para dar um incentivo, e com isto gira o cenário independente. É importante que possamos vender um CD, uma camiseta nas turnês, o Ação Direta, hoje, não vive do grupo exclusivamente, mas somos uma banda auto-gestora, agente gera o capital que faz a banda se mover, gera o capital para gravar nossos discos, da venda de merchandising, gera o capital para fazer as turnês, para investir em equipamento, é uma auto gestão nossa isto tudo. É importante porque hoje a produção independente é grande, agente se desvincula totalmente de grandes corporações, mas precisamos girar a coisa também, pois é um investimento que precisa retornar para poder seguirmos.

Quais os melhores momentos de 2008 para o AD?

Eu diria que no final do ano passado, em 2007, a banda completou 20 anos, e agente teve a volta do “Pancho” na guitarra, que tinha ficado fora por 5 anos, ele voltou agora para a banda no final de 2007. O “Massacre Humano” foi gravado com o Gil, que entrou no final de 2003 e ficou até meio de 2007. Estamos agora com o “Pancho” e combinamos de em 2008 não projetar ainda nenhum disco para gravar pois estamos ainda trabalhando a turnê do “Massacre Humano” e fazendo vários show comemorativos aos 20 anos da banda. Então a melhor coisa de 2008 está acontecendo agora, que é nossa agenda do primeiro semestre, tivemos em festivais como o de Minas Gerais, o “Roça´n Roll”, estaremos em breve em Santa Catarina, em Goiânia e temos uma agenda forte para este segundo semestre de 2008, que são os shows comemorativos aos 20 anos.
O “Pancho” já está bem entrosado, com ele é fácil pois é um Ação Direta a muito tempo, desde os primórdios e temos uma conexão musical, de amizade e de idéias muito forte. Agora em 2008 o grupo está muito forte.

Planos para shows no Norte/Nordeste?

Fizemos em 2004 uma mini turnê pelo Nordeste, foi a primeira vez que a banda esteve lá, ficamos muito felizes com a recepção, o público e vimos que a galera gosta do Ação Direta lá, estivemos em Natal, Recife, Surubim e João Pessoa. Já mandamos materiais para alguns festivais no Nordeste, mas ainda não tivemos um retorno, é meio difícil chegar no Norte/Nordeste, somos realmente underground, mas continuamos tentando contatos com produtores que possam viabilizar esta ida do Ação Direta. A princípio, estamos focados nos festivais, pois sabemos que os festivais têm a estrutura para poder arcar as despesas para o deslocamento da banda. Agora em 2008 acho que não vai ser possível, pois a agenda está bem cheia, até o momento não surgiu nada para o Norte/Nordeste, mas continuamos tentando e a idéia é que para 2009 estaremos sempre tentando levar a banda para cidades e estados em que agente ainda não tocou.


Mais sobre o Ação Direta em:
http://www.acaodiretabrasil.com.br/
http://www.fotolog.com/acao_direta