Na próxima sonda espacial lançada aos confins do universo em busca de inteligência e contendo amostras da cultura terráquea certamente o Arandu Arakuaa teria lugar. A banda faz uma combinação única e bem dosada de vocais femininos guturais e melódicos, resgate de cantos e línguas ancestrais, metal pesado e som orgânico com instrumentos tradicionais. A periferia da capital de um país megabiodiverso ainda do terceiro mundo gerou uma banda com a mistura genética do povo brasileiro que está no patamar internacional já alcançado um dia por Chico Science & Nação Zumbi.
Após 500 anos um ameríndio assume a liderança política constitucional de um país (Evo Morales na Bolívia). Mesmo quem não se declara indígena na América do Sul, muito provavelmente geneticamente o é. O que falta para que a cultura tradicional, dos nossos ancestrais, tenha mais espaço na mídia contemporânea brasileira?
Nájila Cristina (vocais):
Acho que falta uma conscientização desde o ensino fundamental, um conhecimento maior da sabedoria dos povos para que as próximas gerações possam perceber a importância da cultura indígena, da nossa história, nossas raízes. Acho que há pessoas com uma raiz forte com a questão indígena, nascidas em tribos e algumas tem vergonha de dizer que são índios, por preconceito dos outros. Dizem que são selvagens, vivem no meio do mato, não é civilizado, estas coisas.
Zândhio Aquino (guitarra, viola, teclado, vocais):
A grande maioria dos brasileiros tem raiz indígena. É uma questão histórica. Se formos analisar a nossa formação, o que é vendido pela mídia e o que é ensinado nas escolas, vemos que a cultura ocidental começa na Grécia. O império romano acabou invadindo o resto da Europa e a Europa invadindo o resto do mundo. Então foi aquela cultura. Acontece que desde cedo a gente é ensinado a renegar nossas raízes, a ter vergonha delas. Até as figuras que víamos em cartilhas de alfabetização, elefantes e mesmo aquele índio não condiz com a realidade.
A mídia é um reflexo da sociedade e a sociedade reflete na mídia. Agora com o aquecimento global as pessoas vão ter que buscar o instinto de sobrevivência e buscar um modo de vida diferente. No fundo tudo é uma questão de sobrevivência. As pessoas vão ter que começar a olhar isto. Na verdade não é uma coisa complicada, a cultura indígena esta aí, a maioria tem sangue indígena, a cultura indígena está em quase tudo, na culinária, e isto é pouco divulgado.
Nação Zumbi, por exemplo, é uma banda de referência nestas questões culturais, em termos de inovação, mas se formos ver, a cultura afro é mais enraizada na sociedade, há mais acesso, principalmente no Nordeste, os negros preservam muito e na história a casa grande convivia lado a lado com a senzala. Com a cultura indígena realmente é mais complicado porque há esta barreira de achar que o índio tem que viver isolado, tem que andar pelado, se andar de celular então não é mais índio, então é algo muito mais complexo. Não é algo tão popular como a cultura afro. A própria mídia vê com mais facilidade a cultura afro.
Saulo Lucena (baixo, vocais):
Pelo fato de eu ter sido criado em uma cultura distante da indígena posso afirmar que eu mesmo sou uma vítima desta falta de informação que acaba ocorrendo. O sistema não gira tão a favor de nossa cultura nativa. Claro que há exceções, mas por exemplo eu aprendi na escola que o famoso 19 de abril, dia do índio, era apenas uma visita à sede da Funai aqui em Brasília. Era uma coisa muito superficial. Principalmente as cidades que ficam longe dos indígenas. O sistema não valoriza a cultura indígena. É passada a história mas muito mais aquela coisa da colonização.
Não tem esta de descobrimento do Brasil. Existiam civilizações nativas avançadas na América, já há vários milhares de anos. É um conceito muito maior. Isto acaba refletindo no brasileiro, mas só aquela coisa pós-colombiana. Quem não se envolve não sabe a riqueza que são os costumes, o próprio modo de vida. O nosso filtro de barro veio dos índios e há pesquisas científicas que dizem que é o melhor sistema de filtragem que existe. O conceito de usar a natureza a nosso favor, sabendo entender ela. O que há hoje é a questão extrativista, do vamos explorar, explorar, aquela ideia da produção. Produzir, produzir e passar por cima de tudo.
A internet permite viagens virtuais e acesso quase ilimitado ao conhecimento tradicional das populações ancestrais. Como usá-la a favor da divulgação da cultura indígena e onde a internet atrapalha?
Nájila:
O primeiro CD não foi liberado mas vimos que o pessoal acabou baixando. A internet ajuda e ao mesmo tempo atrapalha. Pela questão de não estar fornecendo um material de qualidade. O nosso trabalho pode ser divulgado de uma forma não trabalhada, de qualquer jeito, sem qualidade, o que acaba prejudicando a divulgação ao público. Com uma baixa definição digital.
Zhândio:
Para a Arandu tem mais ajudado que atrapalhado. Eu acho que a internet não tem tudo. É só um ponto de partida para depois você ir mais a fundo. Vai muito da formação cultural de cada um. Se a pessoa não tem boa formação ela vai ver a mesma porcaria na internet daquilo que vê na tv. Mas acho que ajuda a democratizar. Soubemos que já colocaram o nosso primeiro CD na internet. É bom porque divulga. Mas a pessoa paga 10 reais no CD e divulga para o resto do globo para todos terem acesso. Se for ver, do ponto de vista ético é errado. Não é aquilo que nossos avós, pais nos ensinaram. Afinal é o mesmo que pegar algo sem autorização.
Do ponto de vista de divulgação de mercado é bacana. Porém divulgamos muito em vídeos, investimos capital nisto, o video clipe, o single já é uma apresentação da banda. No primeiro disco fizemos dois clipes e um vídeo com as letras. Neste segundo CD pretendemos lançar uns três ou quatro vídeos. O que se espera é que quase tudo que tenha no CD tenha no clipe. A pessoa se interessa e vai buscar.
Infelizmente não temos ainda uma distribuição muito boa. Para ser honesto eu não tenho ainda uma opinião muito bem formada. Posso dizer que a internet ajuda. Do ponto de vista moral é errado, mas para a gente até agora vem ajudando a divulgar. Acontece que você pode investir para fazer uma produção bacana, de nível gringo, como se usa este termo no Brasil, nível profissional é nível gringo, aí o cara baixa o CD em MP3, ouve num celular ou com baixa definição e acha que o CD está mal produzido.
A gente não tem colocado o CD todo para download gratuito porque quando uma banda faz isto, acho que não contribui para o mercado, porque isto cria um vício, isto atrapalha as outras bandas. Cria aquela estória de dizerem que você vende um CD a 10 reais e outra banda disponibiliza gratuito. A gente não faria isto pelo compromisso com a cena. Cria-se uma cultura de que tudo tem que ser de graça, sem profissionalismo. Se você faz um show em local fechado e não cobra ingresso, você está desvalorizando o trabalho dos colegas.
Saulo:
Em termos de divulgação de imagem a internet ajuda bastante. A pessoa vai procurar e se for do interesse vai se aprofundar. Mas não é assim que se está na Wikipédia é a verdade e acabou por aí.
Quanto aos downloads, se a pessoa gosta de banda vai querer comprar o CD, uma camiseta. Estamos em um lance profissional, obviamente se espera algum retorno. Desde o início a ideia foi viver da banda. Queremos passar o resgate da cultura indígena e tradicional brasileira. Uma de nossas propostas é de certo modo ressurgir o orgulho de ser brasileiro. Mas hoje todos da banda têm trabalhos paralelos, ninguém sobrevive hoje só da banda ou só de arte em geral.
Zhândio:
Banda autoral quando começa a fazer uma qualidade melhor de som deixa um pouco de tocar ao vivo porque busca este aprimoramento. Quando uma banda grava um CD começa a trilhar por um caminho mais profissional, ao invés de aumentar a quantidade de shows. Nós mesmos tocávamos muito mais do que hoje.
Os Bandeirantes são vistos hoje como heróis. Quase não há cidade brasileira sem referência explícita a eles. Os Bandeirantes foram imortalizados tanto quanto suas tribos massacradas: Tamoios, Tupiniquins, Guaranís e tantas outras. O Borba Gato posa em monumentos garbosamente ostentando seu bacamarte. A Polícia Militar de São Paulo é representada no brasão com um Bandeirante. A cidade de São Bernardo – SP tem em seu brasão outro bandeirante, lado a lado com um indígena. Música e as artes em geral podem ser uma forma eficiente de explicitar a hipocrisia de boa parte da sociedade brasileira ou ninguém presta muita atenção às letras das músicas?
Nájila:
Há pessoas que buscam um enriquecimento em termos de conhecimento. Acho que para estas pessoas a proposta do Arandu Arakuaa será atingida. Eles vão procurar saber e entender nossa mensagem. Principalmente na questão de preservação do meio ambiente, preservação das culturas tradicionais, erradicação do preconceito. Se no mundo houvesse respeito a todas as etnias, todas as religiões, com certeza viveríamos em um mundo melhor.
Zhândio:
Há um mal nas religiões, como foi a história da catequização dos índios. Não cito nem a questão da religião, mas sim da verdade. O hindu vai defender a sua cultura até o fim, o muçulmano a mesma coisa então é muito complicado esta coisa de religião. Somos de cultura cristã e toda a máquina da história vai ser de cultura cristã. Também José de Anchieta vai ser tratado como herói porque catequizou, cristianizou os índios.
Sobre os bandeirantes serem heróis imagina uma coisa simples. Você está na sua casa, com sua família, seus amigos, aí vem alguém entra em sua casa, mata seus filhos, estupra sua mulher, leva a filha mais bonita embora para servir de escrava sexual. Este sujeito não pode ser tratado como herói. Algum grupo de assassinos chegou, invadiu a terra e depois com o tempo foram aperfeiçoando a forma de dominar, pela opressão, mas no início era pela força mesmo. Até pouco tempo rolava isto. Eu sou do norte de Tocantins, minha avó tinha sangue indígena. Fui criado próximo a aldeia indígena Xerente. Minha avó contava histórias que imagino que ela tenha visto quando criança, ou que tenha ouvido, que chegava o homem branco na aldeia, matava todo mundo e as mulheres grávidas depois de mortas tinham a barriga aberta e a criança era aparada na ponta do facão. Não consideravam o ser indígena como se fosse humano, era como se fosse um animal. Então não acho que bandeirante tenha sido herói. Trouxeram o dito progresso mas tomaram terras, trouxeram doenças que não eram comuns nas aldeias. Será que os índios queriam este progresso? O natural seria eles mesmos terem decidido o tipo de progresso natural que queriam. Então eu não vejo de forma positiva qualquer tipo de invasão. Seja no Brasil, na Índia, qualquer tipo de invasão.
Saulo:
Por outro lado os índios já tinham seu próprio sistema religioso e foram dizimados por defender isto, sua cultura, seu modo de vida.
Já existiam civilizações indígenas bem avançadas, não só no Brasil, mas por exemplo os Astecas, os Maias, havia avanço cultural. Realmente existiam guerras entre eles, mas eram valores totalmente diferentes. Bandeirantes eram os capachos do império a serviço dos invasores que se importavam só com o desenvolvimento do império, de sua economia. Claro que esta economia não iria chegar aos indígenas. Acabaram com doenças, expulsos e a grande maioria morta.
A música povo vermelho aborda esta questão da história e mais ao final fala da resistência da cultura.
Zhândio:
As letras da Arandu, o clima das músicas, é mais para que as pessoas tenham aproximação com a cultura indígena, os costumes, a natureza. É mais por este lado, até porque no Brasil as pessoas estão um pouco desacreditadas em um discurso mais agressivo. Na maioria das vezes as bandas que tem uma postura mais agressiva, na cara, acaba sendo, porém não deveria ser, algo como um desabafo. É uma coisa muito pontual. Há sim o lance do rock and roll, que é bacana, mas na Arandu buscamos mostrar um caminho mais musical, algo mais climático.
A estética das letras e da música da Arandu é muito baseada na música indígena. Na música indígena as palavras são poucas, mas são fortes e são conectadas com a música, tem muito improviso. Então o clima da música vai falar muito, não só a letra. A língua portuguesa é muito complexa, fazemos frases enormes, a língua indígena é mais primitiva, mas é um contexto forte. A gente pensa muito nisto na hora de compor.
Falem sobre o processo de pesquisa dos instrumentos tradicionais e da escrita tupi guarani.
Adriano Ferreira (bateria, percussão):
A pesquisa de percussão vejo muito pela internet, em literatura. Lá em Recife há o maracatu, há no Pará o Carimbó. Eu tento buscar, pegar estes elementos de cada região de nosso país, algo que eu possa implementar no som da Arandu.
Nájila:
No final de agosto de 2015 sai o segundo CD. Está mais evoluído. Neste segundo álbum usamos duas novas línguas, o Xerente e o Xavante e também o português. No primeiro CD as letras foram em Tupi Guarani arcaico. Não houve a tentação de fazer letras em inglês, mas já pensamos em um cover cantado em inglês.
No primeiro CD houve teclado em algumas músicas. Neste segundo CD menos. Utilizamos bem mais instrumentos indígenas. Muito canto e som indígena, tribal. Tem a letra em português que é bem crítica, chama "Povo Vermelho". Acho que vai dar o que falar pois fala da colonização, da exploração, do processo de extermínio que os índios ainda estão sofrendo e dos colonizadores que são tratados como heróis. Fazemos primeiro a música e depois encaixamos a letra. Parte da letra fala de uma senhora indígena que teve a tribo atacada quando criança, há mais de 50 anos.
Zhândio:
Com relação a pesquisa de instrumentos fazemos por conta própria. Para mim foi particularmente fácil pois de onde vim, ter tido acesso, então este tipo de informação sempre foi fácil. Contatos com amigos indígenas ou então alguém que conhece algo. É algo informal, de amizade mesmo. Com relação às pesquisas de línguas indígenas é algo bem complicado, pois a língua tem a cultura falada, é passada de geração a geração verbalmente então obviamente ela vai sofrendo alteração. Se a língua escrita sofre alterações, imagine a oral. Então tem pouco material de pesquisa e o pouco que há foi feito com o único objetivo de catequizar. Os poucos que não tem este objetivo acabam ficando presos em universidades, algum projeto pontual de pós-graduação que não é divulgado para a sociedade como deveria. Então fica bem restrito.
Para o primeiro disco o material de pesquisa que a gente usou, em termos de gramática foi o método moderno de Tupi antigo de Eduardo de Almeida Navarro. Acontece muito de darmos entrevistas para estudantes, letras das músicas já foram usadas em aulas em universidade e para escolas. Então sempre tivemos uma conexão forte, apesar de não sermos do meio acadêmico, nenhum integrante, mas há esta conexão forte com a pesquisa.
Nas gravações dos teclados não colocamos samplers. É aquela coisa da tecla mesmo, tocando. Este segundo CD está muito mais orgânico. Gravamos chocalhos, algumas partes é o som de pés, não é o bumbo da bateria. Tem uma música que tem teclado, mas é tocado como piano mesmo.
Arandu tem todo tipo de fã que gosta da banda. De black metal à evangélicos. Já vi até skinhead que curte o som da Arandu, pelo lance do nacionalismo. Por isto a gente da banda não se envolve, tenta respeitar a ideologia de cada fã. Black metal respeita a gente para caramba, muita gente dá apoio, também estudantes da MPB. Vou colocar meu exemplo que acho que a maioria da banda compartilha. Eu nasci na zona rural, sou descendente de indígena, tenho pele clara, saí para estudar, sou pedagogo, sou roqueiro, mas continuo com esta afinidade com a cultura indígena, com música de raiz, toco minha viola, ouço muita música de raiz e sou metaleiro pra caralho. Então o cara que me vir na rua, de pele clara, cabeludo, vai achar lá vai o playboyzinho, o cara da cidade, o urbano, só que este filho da puta não sabe a estória de cada um. Não há como saber a estória que tem uma pessoa.
Acho que a Arandu tem muito a contribuir com pesquisadores, vai muito da linha de pesquisa, em vários campos poderíamos contribuir, no musical, no comportamento. Claro que com conhecimento empírico, obviamente, mas estamos abertos a qualquer tipo de pesquisa que queira valorizar a cultura indígena, a cultura raiz de forma geral. Seja de pós-graduação ou ensino médio. Já demos contribuição a garotos que estavam fazendo trabalhos na escola.
O braço superior de minha guitarra é uma viola, para reproduzir o que é gravado em estúdio. Viola no captador, elétrica. No segundo CD há teclado em apenas uma música. Dependendo do show eu levo para o palco o teclado.
Tivemos outros guitarristas que participaram de shows. Eles eram integrantes da banda mas nunca chegaram a gravar. Desde o EP e nos dois CDs eu gravo as guitarras e os instrumentos tradicionais.
Acho que a informação mais relevante no novo CD é quanto a diversidade. No primeiro CD usamos só o Tupi arcaico. Neste segundo CD tem Xerente, Xavante e português. Então a ideia da banda é ter estas línguas indígenas, qualquer língua indígena.
A parte gráfica do novo CD foi feita pela Bianca Duarte e Natalie Duarte. No primeiro álbum a arte foi feita toda a mão, retratando mais o tupi, uma coisa mais histórica, retratando quase nada da atualidade. Foi um trabalho meio introdutório para a banda.
Saulo:
Trabalhamos muito o regionalismo. Viola caipira com 10 cordas. A bateria é mais percussiva, mais nas linhas regionais. Eu uso uma linha de baixo de seis cordas. Minha família é nordestina, então muita coisa da cultura nordestina eu transfiro para minhas linhas de baixo. Toco dedilhado e também o baixo acústico, que foi usado nos dois CDs, nas músicas mais acústicas, nas outras uso o baixo elétrico normal. Com isto o som é mais trabalhado, com marcações duplas e tal. Na Arandu pude desenvolver bastante isto. Cada membro da Arandu tem esta veia. Eu e Adriano somos filhos de nordestinos, tem este lance regional bem à tona. Zhândio e Nájila descendentes de indígenas. Em fevereiro de 2016 vamos fechar cinco anos com esta mesma formação.
A história de vários países é repleta de referências a genocídios de populações tradicionais. Vocês tiveram acesso ao Relatório Figueiredo (que demonstra as atrocidades cometidas contra os indígenas na ditadura militar brasileira). “Programa de índio” ainda é pejorativo. Afinal, quem fala mal de índio é por desconhecimento da cultura ou por idolatria à cultura contemporânea estrangeira?
Nájila:
Uma parte é desconhecimento, a outra parte o fato da mídia ser muito cinematográfica, muitas fantasias, se investe numa forma de levar as pessoas para um outro mundo, para sair um pouco desta nossa realidade em que vivemos, que é muito crua. Um sistema que torna as pessoas escravas, então acho que por esta coisa de levar para uma outra realidade que não existe, como uma fuga, ou até mesmo a questão de se sobrepor, de estar acima de algo, de auto-afirmar. No racismo, com a escravidão eu vejo desta forma, um dos motivos desta exploração é a questão de se sobrepor, de estar acima do outro. Para se assumir como superior. Não querem se igualar, querer estar sempre superior.
Saulo:
Na Arandu não buscamos esta coisa da política. A gente procura se envolver o menos possível com a política. Nosso modo de tocar as pessoas é muito mais pela questão cultural, pela música, pelas cantigas, pelo interesse da cultura, do modo de vida indígena, pelas estórias que são contadas. Buscamos a valorização de nossa cultura, o que não deveria ser nem uma questão política, porque é nossa identidade, nosso DNA. Isto era para estar latente, não deveria ser necessário focar a política. Pelo sentido puro a política é algo como o indivíduo que não concorda com o que acontece em seu meio então procura alternativas. Mas na Arandu não temos a postura de debates, brigas ideológicas, buscamos a conscientização.
Nájila: seguir a estrada no ambiente machista do rock pode ser um desafio para algumas mulheres. Com chocalho e adereços de índia o preconceito dobra?
Nájila:
Eu acredito muito no trabalho na banda. Se alguém levar para o lado da brincadeira eu tenho consciência da seriedade da banda, então não iria me afetar. Não me recordo de ter acontecido nada com relação a machismo. Estivemos há pouco em um festival de folk metal em São Paulo e vimos muita gente cantando. Muita gente foi para ver nossa banda mesmo, para cantar junto. Arandu Arakuaa tem um público bem abrangente, de black metal, death metal até evangélicos. Porque a banda não é algo para um público específico. Mas, na boa, iria em qualquer show, pode ser com bandas de metal extremo, mesmo porquê temos fãs black metal.
Adriano: mexer com percussão ancestral depois do Igor Cavalera deve aumentar a responsabilidade. O cara mostrou ao mundo a energia dos tambores tribais com o Sepultura e em “No Coração dos Deuses”, e ainda ajudou a divulgar o Taiko dos japoneses do Kodo. Em uma sonoridade tradicional, como a do Arandu Arakuaa aonde cabe o minimalismo percussivo e aonde cabe a técnica apurada?
Adriano:
Acho que tem uma coisa diferenciada no som da banda. É preciso algo diferenciado até para que as frases de bateria possam casar, por exemplo, com as levadas de viola. Desde o começo procuro trazer algo novo, uma pandeirola, jam block, agogô, várias coisas, o pau de chuva que toco também. Tem um instrumento bem legal que comprei de um cara da Paraíba chamado efeito jatobá, é um som bem diferente. No primeiro e no segundo álbum utilizei ele. Dá para ver no youtube o efeito jatobá e o pau de chuva além do set percussivo.
O set percussivo vem muito para casar com os outros elementos da banda, a viola, guitarra, baixo, que é para fazer um som diferente, porque o som da Arandu pede um set diferenciado. Tem uma coisa mais orgânica, por exemplo na batida dos pés. Eu e Zhândio fomos lá no estúdio para gravar isto, a coisa da batida no chão, como o som do bumbo da bateria. A gente não consegue fazer isto em show porque provavelmente não vai sair o som, mesmo com microfone não vai ficar muito legal.
Um instrumento percussivo, não chega a ser indígena nem nada, que uso, é o octoban. Aqui no Brasil quem usa é o João Barone dos Paralamas, gosto muito do som dele, um ótimo baterista. Eu uso no meu set. Além de ficar visualmente legal, traz uma sonoridade diferente, por exemplo, utilizei ele na gravação do segundo CD. É usado muito em bandas de reggae, de funk rock, é um som diferente. O octoban é usado também pelo Portnoy e pelo batera do Red Hot. Então tento trazer isto também.
No CD, na música que abre tem várias frases da música que é só o pé batendo mesmo, algo natural. Vemos que há em tribos esta coisa sincronizada, este gingado, do bater de pés. Tentamos trazer isto para dentro do CD, para as músicas.
Sobre o minimalismo ou a coisa mais elaborada, acho que a gente consegue manter os dois, uma coisa mais minimalista, mais simples, até porque a pegada indígena, a pegada regional, são coisas simples, não tão elaboradas. Já o metal, dependendo da frase da música, tem aquela coisa mais complexa, mais elaborada. Então acho que a gente transita entre estes dois lados. Até porque o som da Arandu, como a gente mescla tudo isto, fica uma coisa até difícil de tocar. Tem algumas coisas difíceis, porque é muita coisa tocando diferente ao mesmo tempo, é muito quebrado, um som de quatro tempos e em tempo que o beat é de um jeito, e outros quatros tempos em um tempo bem mais devagar. Então acho que a gente consegue mesclar esta coisa da dificuldade da música, de um instrumento que tem o seu grau de dificuldade e com simplicidade também. Música regional e música indígena são simples, geralmente coisas do cotidiano, frases e batidas mais simples.
Uso pedal duplo com um bumbo só, por praticidade. Dois bumbos fica uma batera bonita, estilosa, bem grande, só que para sair para fazer shows, ou mesmo em Brasília mesmo, por praticidade uso só um bumbo mesmo, com pedal duplo. Na batera uso um surdo de 16 na posição do tom e o tom de 14 ao lado do surdo. O surdo na posição dele é um de 22 polegadas. Procuro deixar o som da bateria grave. O Igor Cavalera usava muito algo assim, hoje em dia toca em um set mais comum. Com a mão mesmo toco só os maracás, tipo o chocalho e o pau de chuva. A meia lua/pandeirola pode ser tocada com a mão também, mas eu uso com as baquetas justamente para sair um som mais alto. Em show geralmente eu não levo o pau de chuva pois fica meio inviável, não fica muito alto o som. Há problemas para microfonar tudo isto em show, pois uso um set meio grande, tem até um tamborim que uso. Como é muita coisa, em shows menores o pessoal quer microfonar o básico da batera, que é chimbal, caixa, bumbo. Às vezes tenho que conversar com o técnico de som para tirar um microfone do chimbal e posicionar em outro local, pois vai interferir muito na música. E o set de bateria é o nosso diferencial. O set é grande e acontece de tocarmos em locais pequenos. Tocávamos direto em um pub de Taguatinga no início da carreira. Como é pub, é tudo pequeno, quase não cabia o set de bateria todo no palco. Tinha que adaptar, levar menos elementos de bateria justamente para caber.
Agora, show grande não, dá para levar tudo, microfonar tudo. Sobre o lance do Igor Cavalera, eu acho que é um estilo diferente. Lógico que este lance do surdo como tom o pessoal vai ligar ao Cavalera, mas acho que tenho um som próprio. O Igor não usava muito os elementos indígenas, era a coisa mais afro. Ví no Roots na época de 95/96 o set dele não tinha muita coisa. Eu procuro ao máximo levar uma parada que seja só minha.
A gente tem uma ótima aceitação do público brasileiro, na Europa tem uma galera que gosta da gente. Nosso primeiro EP foi vendido na Grécia. Tem um cara de São Paulo que ajudou nesta distribuição, tem um contato em algum país do Leste Europeu. Foi uma coisa artesanal, pessoal, o cara mandou um encarte, aquelas coisas de DVD e distribuiu para algumas pessoas lá, há três, quatro anos atrás. Foi o EP, quatro músicas, a qualidade não tão boa e teve uma aceitação.
Arandu tem uma galera que curte e uma que não curte, não tem um meio termo. A gente é comparado muito com folk rock, mas a gente toca metal, regional e indígena, mas o pessoal vai colocando rótulo, vai nominando. Então tem uma galera que aceita pra caramba, muito no Nordeste, em São Paulo tem uma galera que gosta da gente pra caramba. E tem uma galera que é do contra, que talvez seja aquela galera mais tradicional, do metal tradicional, aquela coisa de guitarra, baixo e bateria.
Em Brasília há uma galera que gosta de nosso trabalho, a gente conversa, troca informações, só que é muito claro para a gente hoje em dia, a maior parte do pessoal que curte nosso trabalho, inclusive a mídia, o pessoal que tem uma formação de opinião está fora de Brasília, estão no eixo Rio-São Paulo e Nordeste. O público nosso é muito mais formado fora de Brasília. Eu acho que talvez seja um pouco da questão da concorrência. Cada um focado em seu trabalho aqui em Brasília. Tem muita banda boa aqui em Brasília. E tem muita gente que acaba se juntando e formando panelinhas. Acaba que nosso som, por ser diferente, não consegue adentrar, por isto a gente fica meio fora aqui em Brasília. Esta galera nova, que curte mais o new metal, algo mais pesado, nosso som não agrada.
Sobre sobreviver da banda, para ser bem realista, acho que sim é possível, mas não vai ser algo tão fácil. Acho que o rock nacional e talvez mundial está muito complicado hoje em dia. Então, por exemplo, com CD não se ganha dinheiro. Tem o lance de show. Mas mesmo no show, mesmo em grande show, tem que tirar o que vai para empresário, o pessoal todo que trabalha na produção, então é difícil. Até banda grande, banda famosa, tem dificuldade para fazer show hoje em dia. Então o integrante tem que investir em outros segmentos para conseguir sobreviver. Com certeza é um sonho meu viver de música e a gente batalha pra caramba, mas enquanto isto não acontece vamos estudando, trabalhando, se virando. Mas se acontecer não vai ser algo tão fácil, em termos de cachês, vai ser algo talvez underground, mas não vai dar muito dinheiro, mas talvez dê para sobreviver. Estamos falando em médio e longo prazo. No caso da Arandu, como é uma coisa difícil de pegar. A música é até fácil de pegar, mas letra, a própria aparência da banda é uma coisa diferente, então não é tão fácil de pegar na grande mídia. Talvez a gente consiga viver de música, mas a médio e longo prazo.
Na América do Sul os cativos de tribos rivais eram engordados e sacrificados em rituais de antropofagia. A disputa por territórios era a causa principal das guerras ancestrais. Grandes concentrações populacionais trouxeram impactos ambientais nas terras ocupadas. Apesar disto, a relação mais estreita com os recursos naturais que os povos primitivos mantinham é o que mais se aproxima dos atuais conceitos de sustentabilidade e de sociedade igualitária. Há esperança de que a humanidade conviva harmoniosamente com o planeta no futuro?
Nájila:
Eu tenho esperança. Não sei, mas acho que a humanidade vai precisar passar por um processo muito chocante para ter uma conscientização ambiental. Acredito que as próximas gerações, tendo isto passado para a infância hoje em dia, a sustentabilidade, energias limpas. Eu acredito, tenho esperança, mas do jeito que caminhamos a Terra irá passar por um colapso, aí acredito em um processo de recuperação do que foi perdido.
Zhândio:
Esperança há. Até porque se não tivéssemos esperança não estaríamos tentando tocar as pessoas através da música. Mas teria que mudar muita coisa. Obviamente tudo começa pela conscientização e aí começam as lutas. Mas se as pessoas continuarem consumindo o que consomem, aí é colapso. O cara só porque tem dinheiro consome por cinco pessoas. Não tem como, se puder tirar da natureza.
A proposta da Arandu é um lance positivo. Na parte musical, em geral nas partes mais lentas, a musica da Arandu é algo tropical mesmo, para cima, que é muito da música regional indígena, escala maior, os tempos quebrados. Estamos em um clima quente, descontraído, positivo, então há isto de escala maior. Por exemplo, se você pegar as bandas do norte da Europa é aquela coisa mais densa. Os vídeos da Arandu são uma coisa super esperançosa, gravados de dia, tem muita luz. Então a ideia da banda é esta mesma. Mas não a esperança igual a do pastor que está aqui atrás (a entrevista foi gravada na Praça do Relógio, Taguatinga, Distrito Federal, em um sábado à tarde sob constante e estridente sonorização de algum pastor de alguma igreja evangélica da região).
Saulo:
Esperança a gente tem e as ideias vão surgindo justamente em função da necessidade pontual. Em geral as pessoas não pensam a coisa do longo prazo, vamos fazer algo para o futuro. As pessoas em geral só vêem o problema pontual, daquela circunstância e procuram resolver na hora. A não ser algumas questões como a emissão de gases do efeito estufa, sobre isto há alguma preocupação. Há a questão da destruição de rios, avanço das cidades sobre os mananciais, algo que está desencadeando falta de água. Nós, que somos o país da água, temos os maiores aqüíferos do mundo. Se nós estamos passando por este problema de falta de água, imagine os países secos, ou onde o cara tem que andar 20 km para pegar uma botija de água. Isto futuramente pode trazer problemas para a gente, a questão de guerra pela água. Escutamos falar que há escolas que ensinam lá fora que a Amazônia já é internacional. Em um mundo globalizado copia-se muito o que vem lá de fora e acaba perdendo a identidade. Mas ainda bem que há grupos, há pessoas que lutam contra isto e procuram despertar as pessoas contra isto.
Zhândio:
(...) temos que arrumar outro guitarrista. Se pilhar, fica como integrante permanente, mas principalmente para shows (...)
(...) a galera manda fotos para a gente pintados de índio, com o CD, falando curtimos sua pintura. Mas, claro, não é nossa a pintura (...)
Saulo:
(...) até em moda, a música da gente foi utilizada por um estilista que buscava a questão da brasilidade (...)
(...) a gente não tem muita influencia de música moderna. É o jeito Arandu de tocar mesmo, nada rebuscado ou erudito, é o jeito nosso mesmo (...)
Nájila:
(...) tem a letra em português que é bem crítica, chama "Povo Vermelho". Acho que vai dar o que falar pois fala da colonização, da exploração, do processo de extermínio que os índios ainda estão sofrendo (...)
Adriano:
(...) Arandu tem uma galera que curte e uma que não curte, não tem um meio termo (...)
Povo vermelho (faixa do CD Wdê Nnãkrda)
(...)
Os monstros do progresso continuaram a matar
Com armas, doenças, pregando sua fé
Ganância e ignorância comandam seus corações
Matavam nossos homens, roubavam nosso saber
Entraram para história como heróis
(...)
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